sexta-feira, maio 15, 2026

SER LIVRE? DÁ QUE PENSAR…

O assombro da liberdade, enquanto sentimento humano, nunca se mostra estável ao longo do tempo. A liberdade muda porque o próprio ser humano se vai alterando nas suas formas de viver, desejar, inquietar-se, produzir sentidos e disciplinar o corpo humano. O sentimento de liberdade surge sempre embebido pela cultura, pela arte do possível, pela linguagem e pelos impulsos do modismo de cada época, muitas vezes incontroláveis.

Num primeiro momento, a liberdade esteve fortemente ligada à resistência e à libertação prática da intimidação externa: do senhor, da escassez, da submissão e do controlo. Era uma liberdade compreendida como conquista concreta, arrancada à dureza do mundo. Mais tarde, sobretudo com o avanço das sociedades modernas, a liberdade passou também a significar expressão do “eu”, autonomia pessoal, escolha subjetiva e consciência de si. O indivíduo descobriu-se livre - ou, pelo menos, começou a apreciar essa ideia.

Todavia, os desenvolvimentos das sociedades contemporâneas acabaram por sofisticar o absurdo. A liberdade deixou de ser apenas uma questão política para se tornar também psicológica, cultural e simbólica. O cidadão do século XXI goza direitos, consumo, mobilidade e expressão, enquanto se deixa moldar alegremente pela arquitetura comportamental. O mercado, a ideologia, as redes sociais, o reconhecimento narcísico e os receios da exclusão transformaram-se em funções quase orgânicas de desempenho e validação. Já nem é preciso mandar: basta sugerir com delicadeza.

Assim, a liberdade vai-se tornando progressivamente mais entrelaçada, enquanto o poder se torna mais discreto e as normas de conduta mais suaves, elegantes e até “afetuosas”. Já não se impõe pelo impedimento direto; infiltra-se pelo desejo, pela sedução e pelo devaneio. Sobretudo, comercializa identidades prontas a usar, embaladas com a promessa irresistível da autenticidade. Cada um julga afirmar-se como único, desde que o faça exatamente dentro do catálogo disponível.

Por isso, o sentimento contemporâneo de liberdade convive com uma pressão contínua que, em nome da própria liberdade, facilmente escorrega para simplificações ideológicas e afetivas. Tudo isto permanentemente observado pelo olhar do outro - esse tribunal invisível - e pelos discretos especialistas da satisfação, sempre atentos a orientar desejos, frustrações e entusiasmos devidamente autorizados.

Em síntese, diria que a liberdade humana exige hoje uma luta muito mais complexa contra artifícios subtis, frequentemente invisíveis ou inconscientes, que moldam comportamentos, pensamentos e escolhas. O verdadeiro teatro contemporâneo talvez resida precisamente aí: nesse cenário de abundância de opções, onde nunca tivemos tantas possibilidades de escolha e, simultaneamente, nunca foi tão difícil distinguir entre aquilo que verdadeiramente desejamos e aquilo que aprendemos, com enorme entusiasmo, a desejar.

No fundo, a cultura consumista não apenas acompanha a liberdade contemporânea - ela organiza o seu teatro. Define os papéis, distribui os desejos e regula os aplausos. O sujeito entra em cena acreditando ser autor, mas encontra-se já inscrito num guião de escolhas pré-formatadas. A peça prossegue com grande vitalidade, porque todos participam nela com convicção - mesmo quando o que se representa é, sobretudo, a forma contemporânea de uma liberdade, sim, organizada e dirigida. 

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