O ser humano sente necessidade de se pensar um cidadão consciente da sua própria lucidez. Convenceu-se de que pensa antes de agir, decide antes de desejar e conhece bem as razões das suas opções. É um belo e conveniente enredo. Pena é que o inconsciente nunca dialogue com ele.
Há quem fale da consciência como se ela fosse a capital da
mente. Todavia, talvez seja apenas uma confortável varanda. A casa é muito
maior. Tem corredores escuros, portas entreabertas, quartos esquecidos e
habitantes que nunca se apresentam quando alguém toca à campainha.
Depois estranhamos as emoções. Aborrecemo-nos sem saber
porquê. Simpatizamos contra toda a lógica. Recusamos aquilo que prometemos
respeitar. Choramos por insignificâncias e permanecemos indiferentes perante
tragédias. A consciência, sempre incansável, chega depois para redigir uma ata
racional dos acontecimentos. Tudo é justificado com admirável segurança, embora
tenha chegado tarde.
Chamamos "verdade" ao que sentimos, como se o
sentimento fosse uma testemunha imparcial. Mas um sentimento não é um
magistrado; é antes um mensageiro. Não nos diz necessariamente como o mundo é,
mas revela-nos como a nossa interioridade foi sendo estruturada por desejos,
medos, perdas, fantasias e memórias que raramente pediram licença à consciência
para existir.
Talvez a legítima maturidade não consista em dominar o
inconsciente, mas em reconhecer que a pessoa humana vale precisamente por ser
maior do que aquilo que sabe de si. Não somos apenas aquilo que pensamos; somos
também aquilo que nos pensa, moldados simultaneamente pelos nossos pensamentos
e pelo mundo que nos rodeia.
A ironia está em que a consciência continua convencida de
que nos governa. O inconsciente, discreto como sempre, limita-se a sorrir. Talvez
a verdadeira sabedoria não consista em acreditar menos na razão, mas em lhe
ensinar a escutar aquilo que nela própria nunca deixou de falar.
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