domingo, junho 28, 2026

A CONSCIÊNCIA NÃO MORA SOZINHA

O ser humano sente necessidade de se pensar um cidadão consciente da sua própria lucidez. Convenceu-se de que pensa antes de agir, decide antes de desejar e conhece bem as razões das suas opções. É um belo e conveniente enredo. Pena é que o inconsciente nunca dialogue com ele.

Há quem fale da consciência como se ela fosse a capital da mente. Todavia, talvez seja apenas uma confortável varanda. A casa é muito maior. Tem corredores escuros, portas entreabertas, quartos esquecidos e habitantes que nunca se apresentam quando alguém toca à campainha.

Depois estranhamos as emoções. Aborrecemo-nos sem saber porquê. Simpatizamos contra toda a lógica. Recusamos aquilo que prometemos respeitar. Choramos por insignificâncias e permanecemos indiferentes perante tragédias. A consciência, sempre incansável, chega depois para redigir uma ata racional dos acontecimentos. Tudo é justificado com admirável segurança, embora tenha chegado tarde.

Chamamos "verdade" ao que sentimos, como se o sentimento fosse uma testemunha imparcial. Mas um sentimento não é um magistrado; é antes um mensageiro. Não nos diz necessariamente como o mundo é, mas revela-nos como a nossa interioridade foi sendo estruturada por desejos, medos, perdas, fantasias e memórias que raramente pediram licença à consciência para existir.

Talvez a legítima maturidade não consista em dominar o inconsciente, mas em reconhecer que a pessoa humana vale precisamente por ser maior do que aquilo que sabe de si. Não somos apenas aquilo que pensamos; somos também aquilo que nos pensa, moldados simultaneamente pelos nossos pensamentos e pelo mundo que nos rodeia.

A ironia está em que a consciência continua convencida de que nos governa. O inconsciente, discreto como sempre, limita-se a sorrir. Talvez a verdadeira sabedoria não consista em acreditar menos na razão, mas em lhe ensinar a escutar aquilo que nela própria nunca deixou de falar.

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