Começo por dizer que a patocracia serve-se, penso eu, de traços psicopáticos, narcisistas e de outras perturbações da personalidade quando indivíduos com essas características conseguem alcançar posições estratégicas de poder e moldar as instituições de acordo com a sua visão do mundo. Poder-se-á dizer que, para além das suas características individuais, importa compreender a dinâmica estrutural através da qual o próprio sistema político pode ser convertido numa patocracia.
Tanto quanto vou assimilando através da leitura e da
observação do momento atual, a patocracia não é apenas o governo de pessoas
amorais, mas a colonização das instituições por um funcionamento mental
atípico. Daí que as características frequentemente associadas à patocracia
emerjam do culto da personalidade, da manipulação da verdade, do desprezo pela
crítica, da concentração do poder, da normalização da mentira e da corrupção,
bem como da exploração do medo e da insegurança.
Todavia, convém lembrar que a patocracia não depende apenas
dos seus promotores. Depende também da passividade, do conformismo ou da
incapacidade crítica das maiorias. Uma minoria patológica dificilmente
governaria sozinha. Necessita, por isso, de colaboradores, oportunistas,
burocratas obedientes e cidadãos que renunciem a pensar por si mesmos.
Do ponto de vista filosófico, talvez se possa dizer que a
patocracia constitui uma degradação da política. Aquela política concebida como
espaço de deliberação sobre o bem comum surge, através da patocracia, invertida
no seu sentido. A política deixa de servir a comunidade e passa a servir as
motivações dos governantes, tais como a ambição de reconhecimento, de domínio,
de grandeza ou mesmo de impunidade.
Talvez a questão mais importante não seja apenas compreender
como surgem estes líderes, mas perceber por que razão determinadas sociedades,
em momentos de medo, ressentimento ou crise, se mostram dispostas a segui-los.
É aí que a análise psicológica encontra a análise sociopolítica da patocracia:
o líder patológico e as condições sociais que permitem a sua ascensão são,
afinal, duas faces do mesmo fenómeno.
Em síntese, diria que a patocracia consiste na transformação
de patologias individuais em lógica de governo. O que começa por aparecer como
perfil psicológico de um dirigente pode acabar por transformar-se numa
estrutura política e cultural que contamina toda a sociedade. As patologias não
prosperam apenas pela vontade dos que as ambicionam. Prosperam igualmente
quando a distração coletiva, o conformismo ou o medo reduzem a vigilância
democrática.
Eis o tempo de acordar.
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