A inteligência não é apenas uma faculdade de resolver
problemas: é uma forma de nos transformarmos.
Ler Barata-Moura é sempre
laborioso, revigorante e catalisador. Desta vez, ao interpelar a IA, ele alarga-se
à formação do sujeito enquanto tarefa de continuidade entre o todo da educação,
cultura e vida. Com tal embaraço, Barata-Moura procura libertar a aprendizagem
da frenética e recomendável serventia à qualificação para o negócio.
Ironicamente, logo afirma que
pensa ao arrepio da corrente que o nosso viver transporta nessa caminhada da
imprudência. O humor, nele, mostra-se sempre vivo, quiçá exigente à medida que
nos vai obrigando a ”ler-pensando”. Ainda mais surpreendente parece querer desassossegar
o leitor acostumado à correria.
Quando Barata-Moura diz que pensa
ao arrepio da corrente, afastando-se do poder e do seu controlo preponderante,
justifica-se. Procura preparar o leitor para uma temática que o desafia ao
arrepio do pensamento precipitado. A sua posição não é a mais frequente, pese
embora procure encaminhar o leitor para uma tese que caminhe contra a
correnteza.
Barata-Moura começa por
esclarecer que o senso comum se serve de um conhecimento prático e superficial
incorporado pelas pessoas através da experiência e do seu legado cultural.
Baseia-se na habituação e no costume, alheio ao rigor científico e dos seus
pensamentos profundos. O senso comum serve, sim, para facilitar o dia a dia e a
tomada de decisões imediatas.
Daí, poder-se-á perguntar qual é
a sua tese. Facilmente responde que o nosso viver, na sua marcha, jamais
deixará de ser um continuado trabalho de educação. O nosso todo viver não fica
pela infância, nem apenas pela escola. A vida não é fixa, mas sim um devir. Não deixa de ser um trabalho constante que exige esforço, reflexão, confronto e
transformação. Uma formação permanente da inteligência, do carácter, da
sensibilidade e da liberdade.
Viver é educar-se continuamente.
Com o tempo, e a idade já não me é curta, fui aprendendo que dar vida ao pensar
se torna uma prática estimulante da existência. Vivemos hoje entranhados em
respostas rápidas, em soluções e pensamentos formatados. Barata-Moura lembra
que os incautos facilmente se tornam leitores ingénuos que esperam sequências
diretas, definições simples e fórmulas de remate.
Como Sócrates, Barata-Moura
parece dizer - “Se procuras certezas confortáveis, escolheste o filósofo
errado”. Barata-Moura lembra que viver é também um continuado trabalho de
educação. Vai mais longe afirmando que viver é não é só preparação para a vida,
tornando-se a dinâmica interna da estrutura intrínseca. Alguém diria que a
maior obra-prima do homem é saber viver. Barata-Moura acrescenta; “E saber
viver é nunca deixar de se educar”.
Ele desperta, pela palavra, a capacidade
de despertar e transmitir bens e direito das grandes ideias através de pequenos
detalhes, onde normalmente se levantam as caladas armadilhas retóricas. Por mim,
sinto não arrecadar humildemente um qualquer pensamento, procuro construi-lo,
reconhecendo o valor profundo da pedagogia do pensar e da reflexão existencial
e ética.
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