quinta-feira, julho 16, 2026

A MÁQUINA PRESUME. O HUMANO CRIA-SE

 

A inteligência não é apenas uma faculdade de resolver problemas: é uma forma de nos transformarmos.

Ler Barata-Moura é sempre laborioso, revigorante e catalisador. Desta vez, ao interpelar a IA, ele alarga-se à formação do sujeito enquanto tarefa de continuidade entre o todo da educação, cultura e vida. Com tal embaraço, Barata-Moura procura libertar a aprendizagem da frenética e recomendável serventia à qualificação para o negócio.

Ironicamente, logo afirma que pensa ao arrepio da corrente que o nosso viver transporta nessa caminhada da imprudência. O humor, nele, mostra-se sempre vivo, quiçá exigente à medida que nos vai obrigando a ”ler-pensando”. Ainda mais surpreendente parece querer desassossegar o leitor acostumado à correria.

Quando Barata-Moura diz que pensa ao arrepio da corrente, afastando-se do poder e do seu controlo preponderante, justifica-se. Procura preparar o leitor para uma temática que o desafia ao arrepio do pensamento precipitado. A sua posição não é a mais frequente, pese embora procure encaminhar o leitor para uma tese que caminhe contra a correnteza.

Barata-Moura começa por esclarecer que o senso comum se serve de um conhecimento prático e superficial incorporado pelas pessoas através da experiência e do seu legado cultural. Baseia-se na habituação e no costume, alheio ao rigor científico e dos seus pensamentos profundos. O senso comum serve, sim, para facilitar o dia a dia e a tomada de decisões imediatas.

Daí, poder-se-á perguntar qual é a sua tese. Facilmente responde que o nosso viver, na sua marcha, jamais deixará de ser um continuado trabalho de educação. O nosso todo viver não fica pela infância, nem apenas pela escola. A vida não é fixa, mas sim um devir. Não deixa de ser um trabalho constante que exige esforço, reflexão, confronto e transformação. Uma formação permanente da inteligência, do carácter, da sensibilidade e da liberdade.

Viver é educar-se continuamente. Com o tempo, e a idade já não me é curta, fui aprendendo que dar vida ao pensar se torna uma prática estimulante da existência. Vivemos hoje entranhados em respostas rápidas, em soluções e pensamentos formatados. Barata-Moura lembra que os incautos facilmente se tornam leitores ingénuos que esperam sequências diretas, definições simples e fórmulas de remate.

Como Sócrates, Barata-Moura parece dizer - “Se procuras certezas confortáveis, escolheste o filósofo errado”. Barata-Moura lembra que viver é também um continuado trabalho de educação. Vai mais longe afirmando que viver é não é só preparação para a vida, tornando-se a dinâmica interna da estrutura intrínseca. Alguém diria que a maior obra-prima do homem é saber viver. Barata-Moura acrescenta; “E saber viver é nunca deixar de se educar”.

Ele desperta, pela palavra, a capacidade de despertar e transmitir bens e direito das grandes ideias através de pequenos detalhes, onde normalmente se levantam as caladas armadilhas retóricas. Por mim, sinto não arrecadar humildemente um qualquer pensamento, procuro construi-lo, reconhecendo o valor profundo da pedagogia do pensar e da reflexão existencial e ética.

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