Interrogo-me, nos tempos de hoje, como é que o capitalismo
aprendeu a conformar a nossa perceção. Reconheço que há muito o capitalismo
deixou de conquistar apenas terras, indústrias ou negócios. Penso, pois, que a
sua conquista mais elaborada é hoje uma outra: a da própria perceção.
Já não basta produzir mercadorias. É preciso moldar a
maneira como olhamos para elas, como olhamos para os outros e, finalmente, como
olhamos para nós próprios. A realidade deixa de ser aquilo que é para passar a
ser aquilo que o mercado deseja que pareça.
É neste ponto que a aquisição de bens se transfigura numa patente
aculturação. A publicidade, a indústria cultural, as redes sociais e o
entretenimento permanente não vendem apenas produtos. Vendem modos de sentir,
modelos de felicidade, critérios de sucesso e até formas de amar e de sofrer. A
perceção torna-se, assim, um território colonizado, uma alienação cultural.
O resultado torna-se uma estranha inversão dos valores. O
necessário parece secundário; o supérfluo apresenta-se como indispensável. O
ser cede o seu lugar ao parecer. O cidadão transforma-se em consumidor e o seu
desejo afasta-se da experiência da vida para ser continuamente forjado por quem
prospera estimulando a nossa contrariedade.
É aqui que o conceito marxiano da mistificação da mercadoria
revela toda a sua atualidade. Elas, as mercadorias, já não escondem apenas as
relações sociais que as produzem; ocultam também a forma como passam a modelar
o nosso imaginário. Acabamos por olhar o mundo através das categorias do
mercado, sem nos apercebermos de que os nossos próprios olhos foram educados
por ele.
A hegemonia cultural completa este processo. Não nos obriga pela força, persuade-nos pela sedução. Faz-nos acreditar que escolhemos livremente aquilo que, muitas vezes, já foi previamente escolhido por nós. A liberdade reduz-se à escolha entre alternativas cuidadosamente preparadas.
Instala-se, então, uma subtil disfunção da perceção. O
desejável aproxima-se do indesejável. O essencial perde brilho. O imediato
vence o importante. O falso apresenta-se com o disfarce do verdadeiro, enquanto
a verdade se torna incómoda, lenta e pouco rentável.
Talvez por isso vivenciamos rodeados de entretenimento e,
apesar disso, frequentemente vazios. O espetáculo oferece compensações para a
vida que não temos. Distribui pequenas alegrias instantâneas para nos afastar
das questões verdadeiramente essenciais. Enquanto permanecemos distraídos, a
realidade continua a organizar-se sem a nossa presença consciente.
A maior vitória deste processo não é económica; é apreciativa.
Consiste em alterar a hierarquia dos valores sem que nos demos conta disso.
Quando deixamos de distinguir o que tem preço daquilo que tem valor, a
conquista está consumada.
Recuperar a liberdade exige, antes de tudo, recuperar a
lucidez da perceção. Ver, nomear e pensar de novo. Porque compreender não é
condenar nem absolver: é tornar inteligível aquilo que parecia natural. E
talvez seja precisamente esse o primeiro gesto de resistência. Quando a verdade
volta a incomodar-nos, é sinal de que a perceção começou, finalmente, a
libertar-se.
Por mim, vou cultivando uma ideia particularmente estimulante: o capitalismo não destrói diretamente os valores, altera sim e silenciosamente, a sua ordem de importância. Essa deslocação da hierarquia dos valores, mais do que a sua negação, constitui talvez a forma mais profunda da conquista da perceção.
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