Tenho 78 anos. Talvez por isso já não procure no futuro uma promessa de novidade. Procuro outra coisa: um amanhã que, de algum modo, se mostre como o eterno do ontem. Não o regresso ao passado, mas a possibilidade de nele reconhecer aquilo que, apesar do tempo, nunca deixou inteiramente de nos habitar.
É aqui que penso o espanto estético do sublime. Não quero
voltar simplesmente ao quotidiano. Conheço-o demasiado bem. Sei das suas
pequenas urgências, das suas repetições, das suas limitações e também da sua
indispensável espessura. É nele que vivemos. Mas há momentos em que alguma
coisa irrompe e nos faz sentir que a vida não se esgota naquilo que
habitualmente somos.
É então, nessa circunstância, que lá desejo estar. Nesse
lugar onde a experiência deixa de ser apenas contemplação e se torna quase
convulsão; onde alguma coisa nos invade, simultaneamente fascinante e
esplendorosa, e nos faz sentir uma força que parece exceder a medida habitual
do nosso próprio ser.
Talvez seja isso o sublime, uma experiência em que nos
sentimos maiores do que aquilo que julgávamos ser, sem deixarmos de sentir, ao
mesmo tempo, a nossa própria pequenez. Não se trata, portanto, de fugir de nós.
Talvez seja precisamente o contrário. O sublime aproxima-nos de uma dimensão de
nós mesmos que o quotidiano raramente permite reconhecer. Uma força que não vem
necessariamente de fora, embora seja despertada por aquilo que nos excede.
Talvez uma força que estava em nós sem que soubéssemos verdadeiramente dela.
Por isso, o sublime fascina e assusta. Fascina porque abre
uma passagem para além dos limites habituais da experiência. Assusta porque não
é fácil permanecer aí. Não se aguenta indefinidamente essa intensidade. O
excesso também cansa, desorganiza, convulsiona. Somos seres feitos de medida, e
o sublime é, por definição, uma experiência que parece colocar-nos diante do
que não cabe inteiramente em medida alguma.
Talvez seja por isso que regressamos. Regressamos ao
quotidiano não porque aquilo que vivemos no sublime fosse uma ilusão, mas
porque precisamos do mundo comum para continuar a viver. O sublime não
substitui a vida quotidiana; interrompe-a. E, ao interrompê-la, revela-nos que
ela poderia ser outra coisa. Talvez seja esta a sua verdadeira grandeza: não
nos retirar da vida, mas devolver-nos a ela com uma perceção diferente.
E então compreendo melhor a minha própria ânsia. Não quero
simplesmente voltar ao ontem. Quero encontrar, no amanhã, alguma coisa que faça
o ontem continuar vivo sem o repetir. Quero que o tempo não seja apenas aquilo
que passa, mas também aquilo que permanece. Quero estar lá, nesse lugar
impossível onde memória e futuro, finitude e desejo, experiência e eternidade
quase se tocam.
Sei que esse lugar não pode ser habitado permanentemente.
Sei que ninguém aguenta estar sempre lá. Mas talvez não seja necessário. Basta,
talvez, ter conhecido essa experiência. Ter sentido, ainda que por instantes,
que há em nós uma força que o quotidiano não revela inteiramente. Uma força que
não nos torna imortais, mas nos permite experimentar, diante daquilo que nos
excede, uma espécie de intensidade da própria existência.
E talvez seja isso que procuro quando digo totalidade. Não
uma totalidade possuída, fechada, definitiva. Mas uma totalidade desejada: o
instante raro em que, por um momento, nada parece faltar e sentimos que a
existência, apesar da sua finitude, contém mais do que aquilo que conseguimos
dizer. Aos 78 anos, talvez não procure já acrescentar simplesmente mais tempo
ao tempo.
Procuro intensidade no tempo que resta. Procuro esses
instantes em que a vida deixa de ser apenas passagem e se transforma em
presença. Quero estar lá. Mesmo sabendo que não posso ficar. Não acrescentando
simplesmente mais tempo ao tempo, mas intensidade no tempo que resta.
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