segunda-feira, agosto 10, 2026

O SUBLIME E O TEMPO QUE RESTA

Tenho 78 anos. Talvez por isso já não procure no futuro uma promessa de novidade. Procuro outra coisa: um amanhã que, de algum modo, se mostre como o eterno do ontem. Não o regresso ao passado, mas a possibilidade de nele reconhecer aquilo que, apesar do tempo, nunca deixou inteiramente de nos habitar.

É aqui que penso o espanto estético do sublime. Não quero voltar simplesmente ao quotidiano. Conheço-o demasiado bem. Sei das suas pequenas urgências, das suas repetições, das suas limitações e também da sua indispensável espessura. É nele que vivemos. Mas há momentos em que alguma coisa irrompe e nos faz sentir que a vida não se esgota naquilo que habitualmente somos.

É então, nessa circunstância, que lá desejo estar. Nesse lugar onde a experiência deixa de ser apenas contemplação e se torna quase convulsão; onde alguma coisa nos invade, simultaneamente fascinante e esplendorosa, e nos faz sentir uma força que parece exceder a medida habitual do nosso próprio ser.

Talvez seja isso o sublime, uma experiência em que nos sentimos maiores do que aquilo que julgávamos ser, sem deixarmos de sentir, ao mesmo tempo, a nossa própria pequenez. Não se trata, portanto, de fugir de nós. Talvez seja precisamente o contrário. O sublime aproxima-nos de uma dimensão de nós mesmos que o quotidiano raramente permite reconhecer. Uma força que não vem necessariamente de fora, embora seja despertada por aquilo que nos excede. Talvez uma força que estava em nós sem que soubéssemos verdadeiramente dela.

Por isso, o sublime fascina e assusta. Fascina porque abre uma passagem para além dos limites habituais da experiência. Assusta porque não é fácil permanecer aí. Não se aguenta indefinidamente essa intensidade. O excesso também cansa, desorganiza, convulsiona. Somos seres feitos de medida, e o sublime é, por definição, uma experiência que parece colocar-nos diante do que não cabe inteiramente em medida alguma.

Talvez seja por isso que regressamos. Regressamos ao quotidiano não porque aquilo que vivemos no sublime fosse uma ilusão, mas porque precisamos do mundo comum para continuar a viver. O sublime não substitui a vida quotidiana; interrompe-a. E, ao interrompê-la, revela-nos que ela poderia ser outra coisa. Talvez seja esta a sua verdadeira grandeza: não nos retirar da vida, mas devolver-nos a ela com uma perceção diferente.

E então compreendo melhor a minha própria ânsia. Não quero simplesmente voltar ao ontem. Quero encontrar, no amanhã, alguma coisa que faça o ontem continuar vivo sem o repetir. Quero que o tempo não seja apenas aquilo que passa, mas também aquilo que permanece. Quero estar lá, nesse lugar impossível onde memória e futuro, finitude e desejo, experiência e eternidade quase se tocam.

Sei que esse lugar não pode ser habitado permanentemente. Sei que ninguém aguenta estar sempre lá. Mas talvez não seja necessário. Basta, talvez, ter conhecido essa experiência. Ter sentido, ainda que por instantes, que há em nós uma força que o quotidiano não revela inteiramente. Uma força que não nos torna imortais, mas nos permite experimentar, diante daquilo que nos excede, uma espécie de intensidade da própria existência.

E talvez seja isso que procuro quando digo totalidade. Não uma totalidade possuída, fechada, definitiva. Mas uma totalidade desejada: o instante raro em que, por um momento, nada parece faltar e sentimos que a existência, apesar da sua finitude, contém mais do que aquilo que conseguimos dizer. Aos 78 anos, talvez não procure já acrescentar simplesmente mais tempo ao tempo.

Procuro intensidade no tempo que resta. Procuro esses instantes em que a vida deixa de ser apenas passagem e se transforma em presença. Quero estar lá. Mesmo sabendo que não posso ficar. Não acrescentando simplesmente mais tempo ao tempo, mas intensidade no tempo que resta.

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