Foi preciso algum tempo, e alguma vida, para compreender verdadeiramente o significado de um amigo que tive a satisfação de conhecer, em tempos de guerra, em Lourenço Marques, hoje Maputo.
Ao longo daquele jantar, falou-me de valores e da
importância que se assumem na relação com os outros. Reconheci, de imediato,
nas suas palavras, uma maneira de sentir que procurava o que há de humano e
comum em cada um de nós.
Falámos, conversámos, confrontámo-nos. E fui percebendo que
os prazeres, os sentimentos e as experiências de cada um podem abrir caminhos
diferentes, mas nem por isso deixam de nos aproximar. Havia entre nós uma
espécie de aritmética de valores que ia enriquecendo, quase sem darmos por
isso, a realidade que partilhávamos.
Sentimo-nos bem naquela conversa, talvez porque a palavra
circulava livremente e porque, de forma inesperada e saudável, falávamos de
necessidades, desejos e interesses sem receio de nos mostrarmos.
Hoje, tantos anos depois, reconheço naquele jantar um
momento precioso. Não apenas pelo que então ouvi, mas pelo que ficou a
trabalhar em mim. Foi ali que, talvez sem o saber, comecei a descobrir um
horizonte de mundo-em-comum e a aproximar-me de uma ideia de valor que, mais
tarde, viria a reconhecer como fundamento de um juízo ético.
Há encontros que pertencem ao passado. E há outros que,
através do acontecido, continuam a fazer parte daquilo que somos. Este
foi, e para mim continua a ser um deles.
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