Com toda lisura, sinto que a burguesia, no tempo em que
crescemos e nos educámos, para além das suas qualidades teóricas, teve uma
intervenção relevante nas conveniências da vida humana. Conduziu consigo a
valorização da iniciativa, da transformação do mundo, da técnica e da
possibilidade de melhorar as condições materiais da existência.
Todavia, com o tempo, porventura a sua intervenção não foi aquela
que esperávamos. O dito burguês, mergulhado na sua relevância prática, quis
viver confortavelmente nesse mundo, intervindo nele e aí procurando o seu êxito.
O útil fez-se, ao longo do tempo, uma forma de medida da realidade. E o triunfo
industrialista encontrou nas técnicas meios cada vez mais capazes para
manipular com mestria, agilizar o fabrico e tornar a vida mais regalada.
O vulgo interessou-se por essa evolução, não necessariamente
por abertura mental, mas sobretudo pelas meios económicos que ela ofertava. Porém,
fomos assimilando, quase sem dar por isso, baralhando melhoria de vida com
acumulação de coisas, liberdade com poder de escolha, conforto com bem-estar e
rapidez com o progresso.
A minha inquietação aqui começa, não porque considere o
conforto um mal, nem porque queira regressar a qualquer passado idealizado. O
problema está quando a comodidade deixa de ser um meio e passa a orientar a
própria existência, oferecendo-nos continuamente aquilo de que supostamente
precisamos para sermos felizes. A cultura, sempre apressada, convence-nos de
que não podemos recusar.
Precisamos, por isso, de um olhar mais penetrante e crítico
sobre o entusiasmo fácil com que recebemos aquilo que se apresenta como
progresso. Não para recusarmos a modernidade, mas para não sermos excluídos por
ela.
Talvez a liberdade comece precisamente onde a comodidade
deixa de nos satisfazer. Onde somos capazes de suspender a impaciência, duvidar
do consumo, suportar alguma inquietude e dedicar-nos a pensar, conversar, ler e
duvidar, evitando respostas imediatas. A liberdade talvez não esteja em
podermos escolher cada vez mais coisas, mas sim em dar atenção à possibilidade
de indagar o que vale a pena separar.
Sucintamente, diria que a sociedade que nos promete mais
liberdade pode, através do consumo, da velocidade e do fabrico incessante de
desejos, limitar o espaço interior necessário para sermos livres. Em síntese
diria que não somos obrigados a desejar, sobretudo a desejar aquilo que nos é incessantemente
exibido, quem sabe oferecido.
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