terça-feira, setembro 22, 2026

A CULTURA BURGUESA E O OBTUSO RUMO DA LIBERDADE

Com toda lisura, sinto que a burguesia, no tempo em que crescemos e nos educámos, para além das suas qualidades teóricas, teve uma intervenção relevante nas conveniências da vida humana. Conduziu consigo a valorização da iniciativa, da transformação do mundo, da técnica e da possibilidade de melhorar as condições materiais da existência.

Todavia, com o tempo, porventura a sua intervenção não foi aquela que esperávamos. O dito burguês, mergulhado na sua relevância prática, quis viver confortavelmente nesse mundo, intervindo nele e aí procurando o seu êxito. O útil fez-se, ao longo do tempo, uma forma de medida da realidade. E o triunfo industrialista encontrou nas técnicas meios cada vez mais capazes para manipular com mestria, agilizar o fabrico e tornar a vida mais regalada.

O vulgo interessou-se por essa evolução, não necessariamente por abertura mental, mas sobretudo pelas meios económicos que ela ofertava. Porém, fomos assimilando, quase sem dar por isso, baralhando melhoria de vida com acumulação de coisas, liberdade com poder de escolha, conforto com bem-estar e rapidez com o progresso.

A minha inquietação aqui começa, não porque considere o conforto um mal, nem porque queira regressar a qualquer passado idealizado. O problema está quando a comodidade deixa de ser um meio e passa a orientar a própria existência, oferecendo-nos continuamente aquilo de que supostamente precisamos para sermos felizes. A cultura, sempre apressada, convence-nos de que não podemos recusar.

Precisamos, por isso, de um olhar mais penetrante e crítico sobre o entusiasmo fácil com que recebemos aquilo que se apresenta como progresso. Não para recusarmos a modernidade, mas para não sermos excluídos por ela.

Talvez a liberdade comece precisamente onde a comodidade deixa de nos satisfazer. Onde somos capazes de suspender a impaciência, duvidar do consumo, suportar alguma inquietude e dedicar-nos a pensar, conversar, ler e duvidar, evitando respostas imediatas. A liberdade talvez não esteja em podermos escolher cada vez mais coisas, mas sim em dar atenção à possibilidade de indagar o que vale a pena separar.

Sucintamente, diria que a sociedade que nos promete mais liberdade pode, através do consumo, da velocidade e do fabrico incessante de desejos, limitar o espaço interior necessário para sermos livres. Em síntese diria que não somos obrigados a desejar, sobretudo a desejar aquilo que nos é incessantemente exibido, quem sabe oferecido.


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