Gosto de conversar, sobretudo quando a conversa se
transforma numa satisfação de estar e de ser. Uma condição de estar com alguém
sem ter de me valer de configurações que representem uma aparência proveitosa
de mim próprio.
Conversar sem medo de ser, significativo para a vida, é
poder falar abertamente, com confiança, sem o receio de assumir, quem sabe, os
nossos problemas, limitações ou fraquezas. É deixar cair, por momentos, as
imagens e representações que tantas vezes idealizamos - por falsa de senso - para
nos revelarmos ou mesmo exibirmo-nos perante os outros.
Tudo isto não é fácil, pois uma conversa transparente e
aberta exige uma liberdade particular: a franqueza de podermos dizer o que
pensamos e sentimos sem a preocupação frequente de parecermos aquilo que
imaginamos dever ser.
Por isso, não tenho receio dos registos intimistas. Bem pelo
contrário; encontro neles uma possibilidade de me aproximar de mim próprio.
Algumas memórias podem ser revisitadas, outras talvez devam permanecer no
silêncio. Contudo, há sempre sentimentos que deixam marcas e que, ao serem
revisitados através da palavra e da circunstância, ganham uma outra
possibilidade de serem compreendidos.
Conversar pode ser mais do que disputar ou manter
distâncias. Pode tornar-se um estar presente como forma humana de escutar.
Estar com alguém sem a obrigatoriedade de ter sempre uma resposta, uma certeza
ou uma aparência a preservar. Com o tempo, sinto-me a valorizar o meu estar e a
minha partilha, sem esconder instabilidades, aceitando-as como parte daquilo
que sou e vou descobrindo.
Talvez seja isso, afinal, que procuro na fecundidade da
conversa: uma experiência de presença, de autenticidade e de descoberta de mim
próprio através do outro. Reitero que conversar como suspensão da representação
de si não é apenas falar com alguém. É poder, por instantes, deixar de precisar
de uma imagem de si para estar diante do outro.
Reconheço que esta dificuldade de conversar tenha também uma
dimensão social e cultural. Aprendemos, desde cedo, a construir imagens de nós
próprios e a apresentá-las aos outros. Somos, muitas vezes, aquilo que somos e,
ao mesmo tempo, aquilo que julgamos dever parecer.
A cultura, marcadamente consumista e manifesta através dos seus modelos e expectativas, participa nessa tortuosa construção de nós próprios. Por isso, conversar sem medo de ser pode significar também suspender, ainda que por instantes, essa obrigação de parecer. Não para deixar de ser quem somos, mas para podermos estar diante do outro através de uma aproximação da verdade.
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