Pensar é acompanhar o acontecer, deixar que o pensamento se desloque por entre as inquietações que a busca da verdade suscita. Mas a verdade não se oferece forçosamente como um lugar a alcançar. Talvez seja ela que, ao deslocar-se connosco, nos obriga continuamente a respeitar o rumo.
O homem não é diferente de tantos outros apenas porque pensa. A sua diferença talvez esteja na possibilidade de interrogar aquilo que é, de procurar sentido para a própria existência e de reconhecer, nessa procura, a diversidade das formas humanas de viver, sentir e compreender. A diversidade humana não é um acaso da comunidade, mas uma das condições da sua existência.
Ao longo do tempo, o homem revelou-se um ser vivo que procura compreender e dar sentido ao que lhe acontece. A razão tornou-se um dos seus instrumentos fundamentais nessa procura. Mas, quando a razão pretende tornar-se valor absoluto do humano, corre o risco de esquecer que o homem não é apenas racionalidade. É também corpo, desejo, sensibilidade, memória, imaginação e experiência.
Talvez daqui resulte uma das grandes tensões da condição humana: precisamos da razão para compreender, mas não podemos reduzir a existência àquilo que a razão consegue explicar. Há sempre qualquer coisa que resiste à arrumação absoluta do pensamento e que, justamente por resistir, continua a incomodar a consciência.
A modernidade parece ter confiado demasiadamente na capacidade de tornar o mundo inteligível através da razão, da classificação e da medida. Consequentemente, alguma dimensão da sensibilidade foi sendo recolhida. O corpo tornou-se, muitas vezes, objeto a disciplinar, enquanto o pensamento se afastava da experiência concreta de estar a viver.
Mas não é possível extrair da mente a sua dimensão existencial. Pensar pertence à condição humana porque o homem não se limita a existir: interroga a sua existência. Refletir, filosofar, talvez seja precisamente não permitir que essa incerteza seja reduzida à resposta pronta, à certeza definitiva ou à simples adaptação ao que existe.
Por isso, talvez a questão não seja saber como diminuir essa dimensão filosofante, mas como impedir que ela se separe do corpo e da sensibilidade. O pensamento que perde o corpo pode tornar-se abstração; a sensibilidade que abandona o pensamento pode perder a possibilidade de compreender aquilo que sente, aquilo que vive.
Entre ambos permanece o humano: o valor desse lugar instável onde razão e sensibilidade se encontram, onde o sentido não está definitivamente dado e onde a verdade continua a ser procurada.
Talvez pensar seja, afinal, permanecer nesse caminho, evitando que o pensamento perca o corpo e se transforme em abstração, e que a sensibilidade, sem o acompanhar, perca a possibilidade de compreender aquilo que sente.
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