quarta-feira, setembro 16, 2026

O CLUBISMO DOENTIO

Há conversas de futebol que ultimamente evito ouvir. Não propriamente pelo futebol, que procuro reconhecer como uma expressão cultural capaz de despertar paixão, memória, pertença e até uma saudável rivalidade. O que me incomoda é a transformação do clubismo num fanatismo que não suporta ouvir o outro.

Nessas conversas, a dita opinião raramente se oferece à análise e ao debate. Afirma-se. Defende-se. Combate-se. O erro do seu clube dificilmente é reconhecido e a qualidade do adversário parece, muitas vezes, uma cedência inaceitável. A divergência deixa de ser uma possibilidade de pensamento e torna-se numa ameaça à própria pertença.

Talvez seja aqui que o fanatismo revele uma dimensão cultural que ultrapassa o futebol. O fanático, dizia uma expressão que recentemente encontrei, não é apenas aquele que exclui a opinião divergente; é também aquele que pode ser possuído pela própria opinião pública. Julga possuir uma opinião, quando, afinal, é a opinião do seu grupo que o possui.

Isto ajuda-me a compreender algumas dessas controvérsias. Há quem pareça falar em nome de uma opinião própria, quando fala sobretudo a partir da dura identidade a que pertence. O clube deixa então de ser apenas uma inclinação ou uma paixão: passa a ser uma espécie de lugar a partir do qual se encara a vida. E, quando isso acontece, admitir a razão do outro pode parecer uma forma de traição.

Levando isto um pouco a sério, sinto faltar qualquer coisa que deveria ser própria de um pensar culturalmente: a capacidade de interromper, por momentos, a nossa inclusão para podermos prestar atenção. Não para deixarmos de ser quem somos, nem para abandonarmos as nossas convicções, mas para reconhecermos que pensar exige alguma distância em relação àquilo que sem demora nos possui.

Talvez por isso alguns debates de futebol me interessem hoje menos pelo que dizem sobre futebol do que pelo que revelam sobre nós. Revelam como, com facilidade, podemos confundir opinião com identidade, divergência com ataque e convicção com certeza. O problema não está, afinal, em gostar demasiado de um clube. Está em deixar que o recôndito fanatismo pense por nós. 

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