terça-feira, setembro 29, 2026

O QUE NÃO SABEMOS DE NÓS

Com a idade que tenho - 78 anos, idade já significativa - reconheço, com alguma lucidez e profundidade, o valor da minha interioridade, ao experimentar, talvez mais do que antes, o que significa sentir-me humano.

A subordinação do saber ao uso da racionalidade, como se o pensamento e os sentimentos conscientes pudessem dispensar a estrutura inconsciente que os sustenta, veio, com o tempo, a revelar-se insuficiente. Fui então descobrindo que pensar não é apenas aquilo de que tenho consciência quando penso. Sentir, por sua vez, também não começa nem termina naquilo que conseguimos nomear.

Daí a importância de atender àquilo que vai para além do conteúdo precipitado dos pensamentos: às experiências vividas, às relações, aos afetos, às perdas, aos medos e aos desejos que, ao longo do tempo, vão moldando comportamentos, modelos de resposta, convicções inconscientes e até ideias que julgamos nossas, mas que, em parte, nos foram dadas.

Talvez uma vida mais longa nos permita perceber tudo isto com maior clareza, ao reconhecer que não somos apenas aquilo que pensamos ser. Somos também aquilo que fomos interiorizando sem saber que o fazíamos. Daí, talvez, conhecer-se seja precisamente começar a interrogar aquilo que em nós parecia tão naturalmente nosso que nunca nos ocorreu perguntar de onde veio.

Não é fácil esta exigente interioridade. Talvez porque, ao procurarmos conhecer-nos, nem sempre encontramos apenas aquilo que somos. Encontramos também o que a vida fez de nós, aquilo que hoje sentimos como “nosso”, mas que pode ter resultado de uma adaptação necessária a algo que não escolhemos.

O conhecimento de cada um de nós começaria, então, não por rejeitar aquilo que somos, mas por perguntar como chegámos a sê-lo, ou seja, conhecer-nos não apenas pelo que pensamos ser, mas também pela história que nos fez ser assim.

Sem comentários:

Enviar um comentário