Com a idade que tenho - 78 anos, idade já significativa - reconheço, com alguma lucidez e profundidade, o valor da minha interioridade, ao experimentar, talvez mais do que antes, o que significa sentir-me humano.
A subordinação do saber ao uso da racionalidade, como se o
pensamento e os sentimentos conscientes pudessem dispensar a estrutura
inconsciente que os sustenta, veio, com o tempo, a revelar-se insuficiente. Fui
então descobrindo que pensar não é apenas aquilo de que tenho consciência
quando penso. Sentir, por sua vez, também não começa nem termina naquilo que
conseguimos nomear.
Daí a importância de atender àquilo que vai para além do
conteúdo precipitado dos pensamentos: às experiências vividas, às relações, aos
afetos, às perdas, aos medos e aos desejos que, ao longo do tempo, vão moldando
comportamentos, modelos de resposta, convicções inconscientes e até ideias que
julgamos nossas, mas que, em parte, nos foram dadas.
Talvez uma vida mais longa nos permita perceber tudo isto
com maior clareza, ao reconhecer que não somos apenas aquilo que pensamos ser.
Somos também aquilo que fomos interiorizando sem saber que o fazíamos. Daí,
talvez, conhecer-se seja precisamente começar a interrogar aquilo que em nós
parecia tão naturalmente nosso que nunca nos ocorreu perguntar de onde veio.
Não é fácil esta exigente interioridade. Talvez porque, ao
procurarmos conhecer-nos, nem sempre encontramos apenas aquilo que somos.
Encontramos também o que a vida fez de nós, aquilo que hoje sentimos como
“nosso”, mas que pode ter resultado de uma adaptação necessária a algo que não
escolhemos.
O conhecimento de cada um de nós começaria, então, não por
rejeitar aquilo que somos, mas por perguntar como chegámos a sê-lo, ou seja, conhecer-nos
não apenas pelo que pensamos ser, mas também pela história que nos fez ser
assim.
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