sábado, setembro 26, 2026

A SUBMISSÃO CAMUFLADA

Sonhadores, deixamo-nos proteger pela normalidade, mesmo quando ela desloca falsidades, desacertos e tranquilas violências que já naturalizámos, fechando os olhos. Com o tempo, adaptamo-nos a esse íntimo condicionado e passamos a legitimar o frequente como habitual, o habitual como comum e o comum como natural. Assim se faz, muitas vezes sem ruído, a nossa acessível domesticação.

As relações de poder e os hábitos quotidianos sabem bem como administrá-lo. A cultura está, manifestamente, sempre presente. Não precisa de proibir. Basta-lhe propor, repisar, optar e tornar aceitável. Afasta-nos do que não devemos pensar sem nos dizer que estamos impedidos de pensar. A aparência da qualidade e da lisura encarrega-se do resto: continuamos a sentir-nos livres, mesmo quando já interiorizámos a aceitação dos limites que nos foram traçados.

As palavras têm aqui uma silenciosa função decisiva. Repetidas, tornam-se perceção; a perceção, hábito; o hábito, normalidade. E aquilo que se tornou norma já quase não precisa de ser explicado. Aceita-se, consome-se e reproduz-se. A cultura conquista, assim, a capacidade de nos embalar sem que sintamos o aperto do ensaque.

“Pensar diferente” não é nada fácil. Mais difícil ainda é duvidar do que se tornou habitual. Sabe-se que o hábito tem uma força discreta: não nos obriga, convence-nos. E, quando nos convence adequadamente, já não sentimos o condicionamento como dependência, mas como evidente escolha nossa.

Aprender a pensar pressupõe, por isso, despertar para a cultura que nos “embrulhou”. Não para a recusar em bloco, mas para a interrogar. Reconhecer que aquilo que aprendemos a aceitar pode já não nos surgir como suficiente, assim como a normalidade pode também esconder o disparate. E que a liberdade começa, muitas vezes, quando alguma coisa dentro de nós se atreve a dizer: isto que todos aceitamos, por que razão não o posso questionar?

Criticar é assumir essa liberdade. É tornar visíveis os processos e as formas de atuação que convertem o condicionamento em normalidade. É recuperar a capacidade de duvidar, precisamente onde nos ensinaram a não desconfiar.

Talvez pior do que fazer descuidadamente seja não alcançar aquilo que a cultura abusiva nos habituou a aceitar. Porque o verdadeiro aperto não está apenas em sermos condicionados. Está, sim, em já não reconhecermos que o somos…

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