Há ideologias que têm a habilidade de fingir que não têm convicções próprias. A sua esperteza consiste em refugiarem-se atrás de outras, sempre afadigadas a glorificar a liberdade, o mérito e a responsabilidade individual. Tão ocupadas se mostram a enaltecer as qualidades de cada um que, decerto, lhes falta tempo para indagar as condições - sociais, económicas e políticas - que influenciam, condicionam e regulam o destino de todos. Trata-se de uma narrativa que se insinua sem precisar de pedir licença, porque a casa é sua e lhe basta fazer passar os próprios interesses por evidências factuais.
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Assim, o tradicionalismo, assente na ideologia mercantilista
que se encobre, pode dormitar tranquilamente, enquanto nos vai persuadindo de
que cada um é responsável pelo seu trilho, poupando-se ao incómodo de
esclarecer quem estipula as condições, estabelece as regras do jogo e,
sobretudo, quem delas se protege.
Mas há uma verdade que esta ideologia mascara e que é bom
lembrar: o mundo é feito por nós e, por isso mesmo, pode ser feito de outra
maneira. Se aceitarmos que os valores, as regras e as instituições que
organizam a vida coletiva são construções humanas, teremos também de admitir
que podem ser debatidos e alterados.
É precisamente perante esta possibilidade que a finória
ideologia se agita, embora prefira manter-se oculta. Não porque a mudança seja
impossível, mas porque aquilo que parece natural pode apresentar-se como
inevitável. E nada é mais incómodo para uma ordem conservadora do que descobrir
que a sua aparente eternidade tem uma história e que essa história também pode
conhecer um futuro diferente.

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