Por vezes, e não poucas, vou pensando como o ser humano procura incansavelmente o sentido de si mesmo. Vou lendo e reconhecendo que os seus principais apoios vão-se constituindo como valores estruturantes da identidade, referências a partir das quais procura reconhecer-se, compreender-se e afirmar as suas características essenciais.
O self, enquanto eixo da identidade e da autoestima, sabe-se
que permanece particularmente sensível à forma como cada um se sente
reconhecido ou diminuído pelos outros. Quando esse reconhecimento falha, ou
quando nos sentimos desconsiderados, podem - e naturalmente surgem - sentimentos
de insegurança e desamparo. É como se alguma coisa, no íntimo de nós mesmos,
ficasse exposta a uma ameaça que nos enfraquece. O sentido de si mesmo acha-se,
então, agredido na sua vulnerabilidade: por vezes apenas ferido, outras vezes
profundamente violentado.
Todavia, o sentido profundo de nós mesmos nem sempre
consegue testar a resistência das experiências que o põem à prova. Pode ser
lesado, subestimado ou profundamente vencido por abusos, humilhações e
perturbações que deixam marcas duráveis na forma como nos reconhecemos e nos
relacionamos com a realidade.
Como me parece óbvio, nestas circunstâncias, confrontamo-nos
com o que poderemos chamar um sentido de si mesmo agredido - uma experiência
que merece ser pensada quer no campo da psicologia como no da filosofia
existencial. A barreira psicológica, que acolhe a nossa individualidade, pode
tornar-se vulnerável ou fender-se. O sujeito começa, então, a duvidar do seu
próprio valor e da segurança que encontra em si mesmo. O sentimento de domínio
pessoal sobre a própria vida e a respeito das opções que lhe dão sentido
enfraquece-se, transformando aquilo que antes era uma referência interior
segura num lugar de permanente inquietação.
Muitas vezes, esta investida assume um modo oculto que nos
obriga a indagar: por que razão falo especificamente de ofensa verbal? Porque a
palavra não se limita ao que apenas afirma. Ela acarreta também a intenção que
lhe atribuímos, a relação em que é proferida e o lugar que procura reservar-nos
perante os outros. Uma palavra pode discordar de nós sem nos desvalorizar; no
entanto, também pode rebaixar-nos, descredibilizar-nos ou renegar o valor que
reconhecemos em nós próprios. É através deste sarcasmo refinado e cortante,
hoje tão usado, que importa deter o pensamento para não nos perdermos na sua
malha.
Quando uma afronta atinge profundamente alguém, não é apenas
o seu conteúdo lógico que magoa. É a experiência de se sentir desrespeitado,
exposto ou reduzido a uma condição que não reconhece como sua. A incerteza,
quiçá emocional, instala-se e a capacidade de nos reconhecermos para além do
juízo alheio fica, por momentos, enredada.
Contudo, importa não confundir a agressão com o poder
absoluto de quem agride. Uma palavra ofensiva pode ferir a nossa autoestima,
mas não determina, por si só, o nosso valor. Entre aquilo que os outros dizem
de nós e aquilo que realmente somos existe um espaço de reflexão que precisamos
de preservar. Nem sempre o conseguimos de imediato; por vezes, a ferida fala
mais alto do que a razão. Mas é também nesse espaço interior, entre a ofensa
recebida e o sentido que lhe atribuímos, que podemos recuperar a capacidade de
pensar, sentir e decidir por nós mesmos. Assim, fui aprendendo.
Talvez seja, tudo isto, um dos desafios mais exigentes da
vivência: não permitir que o olhar ou a palavra do outro se transformem na
medida definitiva do nosso próprio valor. Reconhecer a vulnerabilidade não
significa aceitar a humilhação, assim como defender a nossa dignidade não exige
que respondamos à agressão com outra agressão. Exige, antes, que compreendamos
o que nos fere, por que razão nos fere e de que maneira podemos continuar a ser
nós mesmos sem ficarmos encurralados.
Fui, posso afirmar, aprendendo com o tempo que preservar o
sentido de nós mesmos não significa tornarmo-nos imunes às palavras dos outros.
Significa, sim, procurar que a nossa identidade, embora sensível e vulnerável,
não fique inteiramente dependente delas. Por aqui sinto que a liberdade vai
passando e caminhando com paciência e teimosa resistência.
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