quinta-feira, outubro 29, 2026

O SENTIDO DE SI MESMO AGREDIDO

Por vezes, e não poucas, vou pensando como o ser humano procura incansavelmente o sentido de si mesmo. Vou lendo e reconhecendo que os seus principais apoios vão-se constituindo como valores estruturantes da identidade, referências a partir das quais procura reconhecer-se, compreender-se e afirmar as suas características essenciais.

O self, enquanto eixo da identidade e da autoestima, sabe-se que permanece particularmente sensível à forma como cada um se sente reconhecido ou diminuído pelos outros. Quando esse reconhecimento falha, ou quando nos sentimos desconsiderados, podem - e naturalmente surgem - sentimentos de insegurança e desamparo. É como se alguma coisa, no íntimo de nós mesmos, ficasse exposta a uma ameaça que nos enfraquece. O sentido de si mesmo acha-se, então, agredido na sua vulnerabilidade: por vezes apenas ferido, outras vezes profundamente violentado.

Todavia, o sentido profundo de nós mesmos nem sempre consegue testar a resistência das experiências que o põem à prova. Pode ser lesado, subestimado ou profundamente vencido por abusos, humilhações e perturbações que deixam marcas duráveis na forma como nos reconhecemos e nos relacionamos com a realidade.

Como me parece óbvio, nestas circunstâncias, confrontamo-nos com o que poderemos chamar um sentido de si mesmo agredido - uma experiência que merece ser pensada quer no campo da psicologia como no da filosofia existencial. A barreira psicológica, que acolhe a nossa individualidade, pode tornar-se vulnerável ou fender-se. O sujeito começa, então, a duvidar do seu próprio valor e da segurança que encontra em si mesmo. O sentimento de domínio pessoal sobre a própria vida e a respeito das opções que lhe dão sentido enfraquece-se, transformando aquilo que antes era uma referência interior segura num lugar de permanente inquietação.

Muitas vezes, esta investida assume um modo oculto que nos obriga a indagar: por que razão falo especificamente de ofensa verbal? Porque a palavra não se limita ao que apenas afirma. Ela acarreta também a intenção que lhe atribuímos, a relação em que é proferida e o lugar que procura reservar-nos perante os outros. Uma palavra pode discordar de nós sem nos desvalorizar; no entanto, também pode rebaixar-nos, descredibilizar-nos ou renegar o valor que reconhecemos em nós próprios. É através deste sarcasmo refinado e cortante, hoje tão usado, que importa deter o pensamento para não nos perdermos na sua malha.

Quando uma afronta atinge profundamente alguém, não é apenas o seu conteúdo lógico que magoa. É a experiência de se sentir desrespeitado, exposto ou reduzido a uma condição que não reconhece como sua. A incerteza, quiçá emocional, instala-se e a capacidade de nos reconhecermos para além do juízo alheio fica, por momentos, enredada.

Contudo, importa não confundir a agressão com o poder absoluto de quem agride. Uma palavra ofensiva pode ferir a nossa autoestima, mas não determina, por si só, o nosso valor. Entre aquilo que os outros dizem de nós e aquilo que realmente somos existe um espaço de reflexão que precisamos de preservar. Nem sempre o conseguimos de imediato; por vezes, a ferida fala mais alto do que a razão. Mas é também nesse espaço interior, entre a ofensa recebida e o sentido que lhe atribuímos, que podemos recuperar a capacidade de pensar, sentir e decidir por nós mesmos. Assim, fui aprendendo.

Talvez seja, tudo isto, um dos desafios mais exigentes da vivência: não permitir que o olhar ou a palavra do outro se transformem na medida definitiva do nosso próprio valor. Reconhecer a vulnerabilidade não significa aceitar a humilhação, assim como defender a nossa dignidade não exige que respondamos à agressão com outra agressão. Exige, antes, que compreendamos o que nos fere, por que razão nos fere e de que maneira podemos continuar a ser nós mesmos sem ficarmos encurralados.

Fui, posso afirmar, aprendendo com o tempo que preservar o sentido de nós mesmos não significa tornarmo-nos imunes às palavras dos outros. Significa, sim, procurar que a nossa identidade, embora sensível e vulnerável, não fique inteiramente dependente delas. Por aqui sinto que a liberdade vai passando e caminhando com paciência e teimosa resistência.

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