Ao folhear os livros de Francisco Louçã sobre a
"IMAGINAÇÃO", vou reconhecendo que, para além de uma faculdade, ela,
a imaginação, se torna uma parte fortemente integrante da nossa humanidade. Daí
lhe ir reconhecendo um valor bem inerente à nossa condição humana,
imprescindível à circunstância em que meditamos, vivemos e atribuímos sentidos
à existência.
No campo das artes, das experiências divinas, dos desejos e
dos amores, a imaginação envolve-se, seguindo e atuando na estruturação das
culturas e da história humana. No campo das utopias, manifesta-se nas grandes
dimensões da experiência humana, assim como no âmbito das ciências e da vida
quotidiana, moldando os nossos modos de pensar e organizar a realidade.
Imaginar diverge, pois, nas escolhas e direções. Imaginar é
ultrapassar o imediatamente existente, não aceitando que o presente seja a
única possibilidade de futuro. Imaginar é também interpretar para além da arte
ou da literatura, participando na nossa vida emocional, nas relações humanas,
na política, na ciência e na maneira como compreendemos os outros. Imaginar é
criar possibilidades na sua dimensão criativa e de transformação social,
visando um futuro que nos permite questionar o presente.
Imaginar é poder pensar para além dos limites que nos são
preceituados. Imaginar envolve-se em sentimentos, logo, participa na própria
evolução da nossa vida sentimental. Imaginar é criar aquilo que ainda não
conhecemos. Imaginar pode e deve libertar. Imaginar, por isso, precisa da
razão, do conhecimento, da experiência e da responsabilidade ética, tudo em
diálogo.
Diria que a imaginação é uma forma de não nos resignarmos à
realidade. Não porque a realidade deva ser negada, mas porque a condição humana
não se esgota na adaptação ao existente. Imaginar é desejar, questionar,
antecipar, criar, compreender e, por vezes, transformar. Sinto que a imaginação
não acompanha o corpo que vai envelhecendo. Ela, a imaginação, vai-me abrindo
caminhos, despertando curiosidades e dando vida ao meu pensar.
Pergunto, então: como recuperar a capacidade humana de
pensar livremente, compreender o mundo em que vivemos e imaginar outras
possibilidades de existência? A liberdade não deve ser entendida apenas como a
possibilidade de escolher entre alternativas que nos são apresentadas. A
liberdade humana exige capacidade de questionamento, consciência crítica e
autonomia perante aquilo que nos procura conformar.
O tempo não é apenas aquilo que passa. É também aquilo que
fazemos com a experiência acumulada, com a memória e com as possibilidades que
conseguimos imaginar. A sociedade contemporânea vive frequentemente submetida à
urgência do presente: produzir, consumir, competir, acelerar. Mas essa
aceleração pode retirar-nos a disponibilidade para compreender historicamente o
que somos e como chegámos até aqui. Pensar o tempo significa, portanto, não
aceitar o presente como uma realidade definitiva. Significa reconhecer que a
história humana é feita de conflitos, transformações e possibilidades ainda por
construir. Imaginando, dando vida ao pensar.
Somos natureza, corpo, sensibilidade, pensamento, relações e história. Não somos apenas indivíduos isolados, nem podemos compreender a nossa existência separando a dimensão biológica da dimensão social e cultural. A nossa humanidade constrói-se na relação com os outros, na experiência, na capacidade de sentir, pensar, imaginar e atribuir significado à existência. Importa, por isso, questionar as conceções que reduzem o ser humano à sua utilidade económica, à produtividade ou à capacidade de competir. A natureza humana não se esgota naquilo que o sistema económico espera de nós.
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