sábado, novembro 07, 2026

IMAGINANDO, DANDO VIDA AO PENSAR

Ao folhear os livros de Francisco Louçã sobre a "IMAGINAÇÃO", vou reconhecendo que, para além de uma faculdade, ela, a imaginação, se torna uma parte fortemente integrante da nossa humanidade. Daí lhe ir reconhecendo um valor bem inerente à nossa condição humana, imprescindível à circunstância em que meditamos, vivemos e atribuímos sentidos à existência.

No campo das artes, das experiências divinas, dos desejos e dos amores, a imaginação envolve-se, seguindo e atuando na estruturação das culturas e da história humana. No campo das utopias, manifesta-se nas grandes dimensões da experiência humana, assim como no âmbito das ciências e da vida quotidiana, moldando os nossos modos de pensar e organizar a realidade.

Imaginar diverge, pois, nas escolhas e direções. Imaginar é ultrapassar o imediatamente existente, não aceitando que o presente seja a única possibilidade de futuro. Imaginar é também interpretar para além da arte ou da literatura, participando na nossa vida emocional, nas relações humanas, na política, na ciência e na maneira como compreendemos os outros. Imaginar é criar possibilidades na sua dimensão criativa e de transformação social, visando um futuro que nos permite questionar o presente.

Imaginar é poder pensar para além dos limites que nos são preceituados. Imaginar envolve-se em sentimentos, logo, participa na própria evolução da nossa vida sentimental. Imaginar é criar aquilo que ainda não conhecemos. Imaginar pode e deve libertar. Imaginar, por isso, precisa da razão, do conhecimento, da experiência e da responsabilidade ética, tudo em diálogo.

Diria que a imaginação é uma forma de não nos resignarmos à realidade. Não porque a realidade deva ser negada, mas porque a condição humana não se esgota na adaptação ao existente. Imaginar é desejar, questionar, antecipar, criar, compreender e, por vezes, transformar. Sinto que a imaginação não acompanha o corpo que vai envelhecendo. Ela, a imaginação, vai-me abrindo caminhos, despertando curiosidades e dando vida ao meu pensar.

Pergunto, então: como recuperar a capacidade humana de pensar livremente, compreender o mundo em que vivemos e imaginar outras possibilidades de existência? A liberdade não deve ser entendida apenas como a possibilidade de escolher entre alternativas que nos são apresentadas. A liberdade humana exige capacidade de questionamento, consciência crítica e autonomia perante aquilo que nos procura conformar.

O tempo não é apenas aquilo que passa. É também aquilo que fazemos com a experiência acumulada, com a memória e com as possibilidades que conseguimos imaginar. A sociedade contemporânea vive frequentemente submetida à urgência do presente: produzir, consumir, competir, acelerar. Mas essa aceleração pode retirar-nos a disponibilidade para compreender historicamente o que somos e como chegámos até aqui. Pensar o tempo significa, portanto, não aceitar o presente como uma realidade definitiva. Significa reconhecer que a história humana é feita de conflitos, transformações e possibilidades ainda por construir. Imaginando, dando vida ao pensar.

Somos natureza, corpo, sensibilidade, pensamento, relações e história. Não somos apenas indivíduos isolados, nem podemos compreender a nossa existência separando a dimensão biológica da dimensão social e cultural. A nossa humanidade constrói-se na relação com os outros, na experiência, na capacidade de sentir, pensar, imaginar e atribuir significado à existência. Importa, por isso, questionar as conceções que reduzem o ser humano à sua utilidade económica, à produtividade ou à capacidade de competir. A natureza humana não se esgota naquilo que o sistema económico espera de nós. 

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