O senhor, esse jocoso cavalheiro, não entra no Café:
invade-o. Empinado, fragoroso, saúda as gentes em voz alta e, sem demora,
instala-se no imaginário palco onde só ele se reconhece ator principal. Exibe
ironias arrogantes — sempre sobre este e aquele, sobre rotinas gastas e
calamidades que apenas os outros lavram, pois ninguém, exceto ele, parece gozar
da sanidade que julga possuir por natureza.
Ventura de nome, ator público de aparências, artificioso
irritado e enfurecido, desfruta das suas momices emotivas, dos bodes
expiatórios que fantasia e dos muitos remédios que ele próprio disfarça. Muito
conhecido pelas rixas futebolísticas, sempre apostou nas algazarras para
garantir plateia. E, para sua surpresa nenhuma, costuma consegui-la.
No fundo, o seu blá-blá-blá é sempre o mesmo: caótico,
ruidoso, seguro de si ao ponto de não dar por um centímetro de ridículo quando
interpela alguém. O senhor Ventura, com as suas arengas panfletárias, é apenas
a versão ampliada daquela pequena tirania doméstica que todos já viram em
miniatura. A diferença é que, no café, ainda provoca risos — mas no espaço
público, convenhamos, a piada esvai-se depressa.
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