Breves notas sobre o desejo e os extremos ruídos
A sociedade dos tempos de hoje resvala, com frequência, para
uma cultura do impulso. Daí, surge uma influência penetrante na forma como o
sujeito se compreende a si mesmo e se relaciona com os outros. Não se trata
apenas de um aumento de busca de prazer ou de uma maior frente à liberalidade
dos costumes. Configura-se numa transição mais profunda, numa conversão onde o
desejo deixa de ser algo a ajuizar, a trabalhar ou a esculpir numa visão
partilhada, para se tornar critério último de validação da maneira de agir.
Nesta conformação, desejar não é apenas querer, é também autorizar-se.
O desejo mostra-se como manifesta, abrindo mão de interferências simbólicas,
normativas ou éticas. Aquilo que experimento, quero ou exijo passa a valer por
si mesmo. A fronteira, antes aprovada como condição da vida em comum, surge
agora como impedimento à autenticidade pessoal.
É nesta margem que se manobra a mudança do sujeito ético ao
sujeito pulsional. O sujeito ético funda-se na relação com o outro, aceitando a
existência de limites não escolhidos e reconhecendo a responsabilidade como
parte integrante da liberdade. O desejo, nesse cenário, não é rejeitado, mas intermediado
pela linguagem, pela cultura, pelo tempo, pela consideração da mudança
produzida sobre os outros.
O sujeito pulsional, quiçá desejante, pelo contrário, forma-se
a partir do ímpeto da experiência e da recusa da contrariedade. Vive a
contenção como violência simbólica e a responsabilidade como empecilho à
realização pessoal. Não se sente solicitado por um horizonte comum, mas por uma
razão de satisfação, frequentemente súbita, onde o outro desponta como meio,
espelho ou ameaça.
Esta conversão tem impactos abertos ao individualismo do
tempo presente. O indivíduo não se afirma apenas como livre, garante-se também como
autónomo. O comum deixa de ser espaço de uma construção partilhada e passa a
ser pressentida como restrição. A sociedade converte-se, então, numa herdade de
desejos oponentes, pautados mais por artifícios de mercado ou por engenhos
técnicos do que por referenciais éticos válidos e fundamentados.
O que se desaproveita, neste modo de pensar, é aquilo que
poderíamos nomear de o humano comum, valorizando a nossa pertença a um mundo
que não começa nem termina em nós, o acolhimento de deveres que não decorrem de
convenções, a consciência de que viver com outros requer responsabilizar-se pelo
que fazemos, mesmo quando ninguém nos obriga de forma assumida.
A incitação atual não consiste em recusar o desejo, nem em
retroceder a procedimentos impositivos de conformidade. Reside, isso sim, em
reinscrever o desejo numa humanização capaz de reconhecer a liberdade sem diluir
a responsabilidade e a singularidade sem transtornar o comum. Sem essa conciliação,
a cultura e a educação do desejo corre o risco de provocar sujeitos cada vez
mais concentrados em si mesmos, todavia ilogicamente mais vulneráveis, mais subordinados
e mais submetidos à distorção simbólica. Em exposição abreviada, diria que sem
sujeito ético não há desejo humano de verdade, apenas se dá vida a um impulso
biológico e mental, ou seja, um ímpeto à amargurada deriva.
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