sábado, janeiro 24, 2026

DO SUJEITO ÉTICO AO SUJEITO PULSIONAL

 Breves notas sobre o desejo e os extremos ruídos

A sociedade dos tempos de hoje resvala, com frequência, para uma cultura do impulso. Daí, surge uma influência penetrante na forma como o sujeito se compreende a si mesmo e se relaciona com os outros. Não se trata apenas de um aumento de busca de prazer ou de uma maior frente à liberalidade dos costumes. Configura-se numa transição mais profunda, numa conversão onde o desejo deixa de ser algo a ajuizar, a trabalhar ou a esculpir numa visão partilhada, para se tornar critério último de validação da maneira de agir.

Nesta conformação, desejar não é apenas querer, é também autorizar-se. O desejo mostra-se como manifesta, abrindo mão de interferências simbólicas, normativas ou éticas. Aquilo que experimento, quero ou exijo passa a valer por si mesmo. A fronteira, antes aprovada como condição da vida em comum, surge agora como impedimento à autenticidade pessoal.

É nesta margem que se manobra a mudança do sujeito ético ao sujeito pulsional. O sujeito ético funda-se na relação com o outro, aceitando a existência de limites não escolhidos e reconhecendo a responsabilidade como parte integrante da liberdade. O desejo, nesse cenário, não é rejeitado, mas intermediado pela linguagem, pela cultura, pelo tempo, pela consideração da mudança produzida sobre os outros.

O sujeito pulsional, quiçá desejante, pelo contrário, forma-se a partir do ímpeto da experiência e da recusa da contrariedade. Vive a contenção como violência simbólica e a responsabilidade como empecilho à realização pessoal. Não se sente solicitado por um horizonte comum, mas por uma razão de satisfação, frequentemente súbita, onde o outro desponta como meio, espelho ou ameaça.

Esta conversão tem impactos abertos ao individualismo do tempo presente. O indivíduo não se afirma apenas como livre, garante-se também como autónomo. O comum deixa de ser espaço de uma construção partilhada e passa a ser pressentida como restrição. A sociedade converte-se, então, numa herdade de desejos oponentes, pautados mais por artifícios de mercado ou por engenhos técnicos do que por referenciais éticos válidos e fundamentados.

O que se desaproveita, neste modo de pensar, é aquilo que poderíamos nomear de o humano comum, valorizando a nossa pertença a um mundo que não começa nem termina em nós, o acolhimento de deveres que não decorrem de convenções, a consciência de que viver com outros requer responsabilizar-se pelo que fazemos, mesmo quando ninguém nos obriga de forma assumida.

A incitação atual não consiste em recusar o desejo, nem em retroceder a procedimentos impositivos de conformidade. Reside, isso sim, em reinscrever o desejo numa humanização capaz de reconhecer a liberdade sem diluir a responsabilidade e a singularidade sem transtornar o comum. Sem essa conciliação, a cultura e a educação do desejo corre o risco de provocar sujeitos cada vez mais concentrados em si mesmos, todavia ilogicamente mais vulneráveis, mais subordinados e mais submetidos à distorção simbólica. Em exposição abreviada, diria que sem sujeito ético não há desejo humano de verdade, apenas se dá vida a um impulso biológico e mental, ou seja, um ímpeto à amargurada deriva.

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