Leio e ouço argumentos que me assombram não pelo seu vazio,
mas pela hidrofobia das suas falácias. Refiro-me a modos de debater que, de
forma rude e agressiva, ignoram as exigências normativas do diálogo crítico em
que se entremeiam. Sem pudor nem dificuldade, desprendem-se do compromisso
elementar de oferecer razões partilháveis.
O que se afirma pode ter interesse, pode até reivindicar
legitimidade. Todavia, fá-lo sem qualquer relação com referenciais reconhecidos
de alcance universal e intemporal. Os desvios cognitivos aceleram-se numa falta
de lealdade discursiva tanto para com o interlocutor como para com o próprio
procedimento argumentativo. A falácia, neste contexto, não enfrenta a
discordância: procura esquivar-se ao desafio que ela impõe. Daí o recurso a
expedientes, sejam eles emocionais, identitários ou simplificadores, não para
fundamentar, mas para seduzir.
A falácia é, assim, uma violação contextual das exigências
de razoabilidade, reciprocidade e responsabilização que tornam possível um
espaço argumentativo confiável. O falacioso, neste quadro, não pretende
demonstrar o falso, mas antes impedir o outro de responder como falante
racional. As ondas sucessivas dessas falácias tornam-se, por isso, uma ameaça
evidente à democracia, ao espaço público e à própria integridade da disputa
democrática.
Defender a democracia, hoje, é também isto: recusar confundir eficácia com razão, visibilidade com legitimidade, adesão emocional com verdade política. Não se trata de silenciar, mas de exigir que quem fala aceite responder. Sem isso, não há debate. Há apenas ocupação do espaço público. E onde a argumentação morre, a democracia começa a contrair a sua doença fatal. Eis o cenário eleitoral dos tempos de hoje.
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