sexta-feira, janeiro 23, 2026

FALÁCIAS, UM NOVO RUÍDO DA POLÍTICA

Leio e ouço argumentos que me assombram não pelo seu vazio, mas pela hidrofobia das suas falácias. Refiro-me a modos de debater que, de forma rude e agressiva, ignoram as exigências normativas do diálogo crítico em que se entremeiam. Sem pudor nem dificuldade, desprendem-se do compromisso elementar de oferecer razões partilháveis.

O que se afirma pode ter interesse, pode até reivindicar legitimidade. Todavia, fá-lo sem qualquer relação com referenciais reconhecidos de alcance universal e intemporal. Os desvios cognitivos aceleram-se numa falta de lealdade discursiva tanto para com o interlocutor como para com o próprio procedimento argumentativo. A falácia, neste contexto, não enfrenta a discordância: procura esquivar-se ao desafio que ela impõe. Daí o recurso a expedientes, sejam eles emocionais, identitários ou simplificadores, não para fundamentar, mas para seduzir.

A falácia é, assim, uma violação contextual das exigências de razoabilidade, reciprocidade e responsabilização que tornam possível um espaço argumentativo confiável. O falacioso, neste quadro, não pretende demonstrar o falso, mas antes impedir o outro de responder como falante racional. As ondas sucessivas dessas falácias tornam-se, por isso, uma ameaça evidente à democracia, ao espaço público e à própria integridade da disputa democrática.

Defender a democracia, hoje, é também isto: recusar confundir eficácia com razão, visibilidade com legitimidade, adesão emocional com verdade política. Não se trata de silenciar, mas de exigir que quem fala aceite responder. Sem isso, não há debate. Há apenas ocupação do espaço público. E onde a argumentação morre, a democracia começa a contrair a sua doença fatal. Eis o cenário eleitoral dos tempos de hoje.

Sem comentários:

Enviar um comentário