Falar hoje de liberdade não é simples nem insignificante. Não apenas porque o mundo se tornou mais obscuro, mas porque a própria palavra se foi tornando leve e acelerada, disponível para quase tudo: para acomodar, para elogiar a eficiência, para cultuar a adaptabilidade e, sobretudo, para consagrar o desempenho. É neste chão traiçoeiro que a reflexão sobre a ação se torna decisiva. Não para resgatar uma liberdade ontológica cada vez menos considerada, mas para impedir que o humano se reduza a uma teoria convenientemente acordada.
Assim pensado, importa elaborar um posicionamento
esclarecedor que reconheça que a liberdade não é um milagre no interior da
causalidade, nem uma exceção ontológica num mundo governado por leis. É, pelo
contrário, uma destreza situada: a capacidade de agir sensível a razões, de
antecipar consequências, de rever escolhas e de responder pelo que se faz. Não
se trata de uma liberdade absoluta, mas de uma liberdade que assume esse
encalço praticável.
Este rearranjo só se sustenta se aceitarmos que a ação não é
um dado natural, mas um esforço possível e necessário. É nesse ponto que a
maneira de falar deixa de ser um artifício retórico e passa a constituir uma
condição. Sem um domínio de razões, de práticas de justificação, de crítica e
de responsabilidade, não há liberdade humana, mas apenas atividade vantajosa. O
entendimento exige, sim, palavras que obriguem, que exponham, que comprometam.
Convém reconhecer que a liberdade não desaparece quando
abandonamos as ilusões transcendentes; torna-se, isso sim, mais exigente. Já
não se garante por perfumes nem por palavras doces. Depende de ações, de
autenticidade e de crítica. E, sobretudo, da recusa em confundir inteligência
com esperteza, ação com adaptação, responsabilidade com artifício. Pensar a
liberdade hoje passa por aceitar esta tarefa ingrata: não a de possuir mais
opções, mas a de sustentar a condição de representante num mundo que prefere
sistemas eficientes a sujeitos responsáveis.
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