O poema “O Tempo de Si Próprio” expressa mais do que uma simples experiência: revela um momento crucial em que o autor se sente perdido diante de si próprio. Esse “lugar qualquer” em que o seu “eu poético pousa” não é um espaço físico reconhecível, mas um lugar interior, um ponto de paragem onde o movimento da vida se interroga. Parar aqui, e neste tempo, não é apenas suspender o andar, mas permanecer travado pela necessidade de compreender, ainda que sem resposta.
A ideia central acompanha, assim, um tempo vivido como
interioridade - um tempo alheado do tempo social ou refletido. É um tempo
próprio, íntimo, marcado pela lentidão “do tempo que passa devagar” e pelo
cansaço dos sonhos. Sonhar, neste poema, não surge como um rasgo de luz, mas
como um esforço persistente, de sonhos que “correm cansados”. Há desejo, sim,
mas um desejo fatigado, que já conhece bem o peso do tempo.
Interroga-se a si mesmo repetidamente ao perguntar: “Porque
estou aqui? Porque parei por aqui outra vez?”. Sei que essas perguntas pouco ou
nada procuram resolver; antes, despertam uma consciência entorpecida. O poema
mostra um eu que se pensa a pensar, dividido entre o impulso de seguir e a
necessidade de ficar. O silêncio revela-se decisivo, embora reconheça que o seu
“silêncio não consegue ser ouvido”. Trata-se de um silêncio saturado de
sentido, mas sem destinatário - um silêncio que, afinal, não encontra quem.
É neste ponto que se acentua um dos momentos mais
comunicativos do poema: a verdade dos “abraços sem braços”. Eis a imagem que
condensa a sua dimensão afetiva. Procura-se encontro, amabilidade,
participação; contudo, encontra-se o vazio de uma ausência concreta e contrária
ao desejo. O abraço existe como gesto imaginado, como memória ou sonho, não
como realidade vivida. O eu poético encontra-se, assim, numa condição de espera
desprotegida - uma espera obstinada, mesmo sabendo que nada acontece.
O “lugar qualquer” vai-se, então, transformando
progressivamente num lugar de acolhimento, abrigando memórias dispersas,
momentos levados pelo vento, fragmentos múltiplos de vida. Não há revivescência
emocional, mas uma atenção delicada ao que resta. O poema não dramatiza;
permanece. A repetição do gesto de parar indica que este estado não é
excecional, mas recorrente - talvez necessário.
Esse seu verso final - “Parado aqui” - não encerra o
poema com uma conclusão, mas com uma condição humana. O eu permanece, não
porque resolveu, mas porque reconhece que esse tempo - o tempo de si próprio -
é o único possível naquele instante. Há, nisso, uma ética silenciosa: a de não
fugir de si, mesmo quando o cansaço se torna maior do que a esperança.
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