sexta-feira, janeiro 09, 2026

UMA NOVA ECOLOGIA DA MANIPULAÇÃO E DA SEDUÇÃO

A manipulação e a sedução não são fenómenos novos na vida social. A retórica clássica, a publicidade moderna, a propaganda política e a indústria cultural sempre souberam que convencer raramente passa apenas pelo impulso dos argumentos. O que hoje se altera, com a algoritmocracia, não é tanto a existência desses procedimentos, mas a sua escala, a sua opacidade e a sua integração estrutural no quotidiano.

Tendo como referência o Vocabulário Crítico de Argumentação de Rui Alexandre Grácio, a manipulação caracteriza-se pela limitação da autonomia interpretativa do destinatário: omite alternativas, distorce enquadramentos, conduz o juízo sem o assumir como tal. A sedução, por sua vez, atua menos pela coerção do sentido e mais pela atração afetiva, pela promessa implícita de pertença, reconhecimento ou prazer. Ambas operam numa zona cinzenta da argumentação, onde o consentimento é obtido sem plena consciência dos meios que o produzem.

A algoritmocracia pode ser lida como uma nova ecologia dessas práticas. Não se limita a usar técnicas manipulativas ou sedutoras; reorganiza o próprio ambiente onde o sentido circula. Os algoritmos não argumentam: selecionam, hierarquizam, repetem e silenciam. Ao fazê-lo, moldam o campo do dizível e do visível antes mesmo de qualquer confronto racional.

Esta ecologia distingue-se por três traços centrais:

·        A personalização assimétrica. Cada sujeito é exposto a um mundo informacional aparentemente feito à sua medida. Essa adequação cria conforto cognitivo e reforço identitário, mas reduz a discórdia com o diferente. A sedução opera aqui como familiaridade: vemos mais do que confirma quem somos (ou quem julgamos ser). A manipulação surge quando essa personalização oculta o facto de ser uma emenda interessada, orientada por medidas de retenção, lucro ou influência.

·       A autonomia da influência. Ao contrário da propaganda clássica, que exigia intenção explícita e agentes identificáveis, a algoritmocracia dilui a responsabilidade. O efeito persuasivo resulta de correlações estatísticas, testes contínuos e ajustes invisíveis. Não há um discurso a refutar, mas um ambiente a respirar. A manipulação deixa de ser episódica e torna-se envolvente.

·        A captura da atenção como valor perfeito. A sedução algorítmica não promete verdade nem bem comum; promete continuidade: o próximo vídeo, a próxima reação, a próxima indignação. O afeto é constantemente excitado, raramente elaborado. Neste regime, a emoção não é um desvio da racionalidade, mas o seu substituto funcional.

Deste ponto de vista, a algoritmocracia não empobrece apenas o debate público; ela reformula a própria ideia de argumentação. Se a argumentação pressupõe um espaço partilhado de razões, a lógica algorítmica fragmenta esse espaço em parcelas insociáveis. O desacordo deixa de ser conflito interpretável e torna-se, quiçá, um falatório provocador.

A consequência política torna-se evidente: cidadãos progressivamente convencidos sem ponderar, envolvidos sem decidir, mobilizados sem compreender. A manipulação já não se apresenta como imposição externa, nem a sedução como convite assumido; ambas se naturalizam como experiência quotidiana, confortável e eficiente.

Resistir a esta ecologia não significa recusar a técnica, mas reintroduzir serenidade no pensamento: recuperar a lentidão, a exposição ao contraditório, a consciência dos enquadramentos. Significa também reinscrever a argumentação como prática ética, onde persuadir implica reconhecer o outro como sujeito e não como natureza.

A questão decisiva, afinal, não é saber se somos manipulados ou seduzidos - isso sempre fomos. A questão é saber quem organiza o ambiente onde isso acontece, com que critérios e com que possibilidade de resposta crítica. É aí que a algoritmocracia revela o seu verdadeiro alcance: menos um regime de censura, mais um regime de orientação escondida do sentido.

Sem comentários:

Enviar um comentário