A manipulação e a sedução não são fenómenos novos na vida social. A retórica clássica, a publicidade moderna, a propaganda política e a indústria cultural sempre souberam que convencer raramente passa apenas pelo impulso dos argumentos. O que hoje se altera, com a algoritmocracia, não é tanto a existência desses procedimentos, mas a sua escala, a sua opacidade e a sua integração estrutural no quotidiano.
Tendo como referência o Vocabulário Crítico de
Argumentação de Rui Alexandre Grácio, a manipulação caracteriza-se
pela limitação da autonomia interpretativa do destinatário: omite alternativas,
distorce enquadramentos, conduz o juízo sem o assumir como tal. A sedução, por
sua vez, atua menos pela coerção do sentido e mais pela atração afetiva, pela
promessa implícita de pertença, reconhecimento ou prazer. Ambas operam numa
zona cinzenta da argumentação, onde o consentimento é obtido sem plena
consciência dos meios que o produzem.
A algoritmocracia pode ser lida como uma nova
ecologia dessas práticas. Não se limita a usar técnicas manipulativas
ou sedutoras; reorganiza o próprio ambiente onde o sentido circula. Os
algoritmos não argumentam: selecionam, hierarquizam, repetem e silenciam. Ao
fazê-lo, moldam o campo do dizível e do visível antes mesmo de qualquer
confronto racional.
Esta ecologia distingue-se por três traços centrais:
·
A personalização assimétrica. Cada
sujeito é exposto a um mundo informacional aparentemente feito à sua medida.
Essa adequação cria conforto cognitivo e reforço identitário, mas reduz a
discórdia com o diferente. A sedução opera aqui como familiaridade: vemos mais
do que confirma quem somos (ou quem julgamos ser). A manipulação surge quando
essa personalização oculta o facto de ser uma emenda interessada, orientada por
medidas de retenção, lucro ou influência.
· A autonomia da influência. Ao contrário da propaganda clássica, que exigia intenção explícita e agentes
identificáveis, a algoritmocracia dilui a responsabilidade. O efeito persuasivo
resulta de correlações estatísticas, testes contínuos e ajustes invisíveis. Não
há um discurso a refutar, mas um ambiente a respirar. A manipulação deixa de
ser episódica e torna-se envolvente.
·
A captura da atenção como valor perfeito.
A sedução algorítmica não promete verdade nem bem comum; promete continuidade:
o próximo vídeo, a próxima reação, a próxima indignação. O afeto é
constantemente excitado, raramente elaborado. Neste regime, a emoção não é um
desvio da racionalidade, mas o seu substituto funcional.
Deste ponto de vista, a algoritmocracia não empobrece apenas
o debate público; ela reformula a própria ideia de argumentação. Se a
argumentação pressupõe um espaço partilhado de razões, a lógica algorítmica
fragmenta esse espaço em parcelas insociáveis. O desacordo deixa de ser
conflito interpretável e torna-se, quiçá, um falatório provocador.
A consequência política torna-se evidente: cidadãos
progressivamente convencidos sem ponderar, envolvidos sem decidir,
mobilizados sem compreender. A manipulação já não se apresenta como imposição
externa, nem a sedução como convite assumido; ambas se naturalizam como
experiência quotidiana, confortável e eficiente.
Resistir a esta ecologia não significa recusar a técnica,
mas reintroduzir serenidade no pensamento: recuperar a lentidão, a
exposição ao contraditório, a consciência dos enquadramentos. Significa também
reinscrever a argumentação como prática ética, onde persuadir implica
reconhecer o outro como sujeito e não como natureza.
A questão decisiva, afinal, não é saber se somos manipulados
ou seduzidos - isso sempre fomos. A questão é saber quem organiza o
ambiente onde isso acontece, com que critérios e com que possibilidade de
resposta crítica. É aí que a algoritmocracia revela o seu verdadeiro alcance:
menos um regime de censura, mais um regime de orientação escondida do sentido.
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