A emoção nasce como ocorrência. Um sobressalto basta.
Precede a razão e instala-se antes que o pensamento a concilie. Diz-se
imediatamente: “estou desapontado”, e nesse gesto algo se fixa. O que poderia
ser apenas um momento passageiro torna-se questão. O que era inoportuno caso torna-se
identidade súbita.
O homem não é, sabe-se, senhor absoluto do que julga sentir.
Muitas vezes, a emoção emerge como efeito de identificações que atuam à margem
da consciência. Não é apenas afeto, torna-se apreensão. A emoção deixa de ser
uma circunstância e transforma-se num compasso envolvente. O sujeito passa a
habitar aquilo que o perturbou.
A irritação, ou o abalo, incentiva uma consistência
inesperada ao eu. Conferem-lhe intensidade, quase alma. Produz uma forma
paradoxal de gozo, desse conforto extraído da própria insistência do mal-estar.
Sofre-se, mas nessa desolação encontra-se uma autoafirmação. A racionalização
apressada, longe de esclarecer, apenas organiza o desconforto de modo a
torná-lo aproveitável.
Vive-se aí um tempo em que a emoção rapidamente se converte
em indício identitário. Deixa de ser uma experiência passageira, tornando-se um
indicador de pertença. A discórdia, a suscetibilidade ou a indignação deixam de
ser instantes e vestem-se de interpretações. A espontaneidade torna-se suspeita,
a ambiguidade intolerável e a hesitação quase culpável. Aprende-se que existir
é arriscar-se.
O “estou desapontado” já não exprime apenas um momento interior: inscreve o sujeito numa onda afetiva que foge à regra. A emoção ganha uma outra relevância notória. E, ao ganhar posição, favorece a equívoca continuidade ao eu. Ganha-se campo, sim, mas definha-se a profundidade. A identidade não precisa de estacionar em cada estado de alma. O sujeito é bem mais do que o instante em que se ofende. A liberdade - essa palavra tão invocada - só se torna valiosa quando se aprende a distinguir a emoção que nos atravessa e o rumo que escolhemos e queremos seguir.
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