A LIBERDADE tornou-se a palavra mais circulante da nossa época. Não nos liberta, agimos, sim, dentro dela. Tornou-se ideia central e comum da vida social. A sua gramática implícita faz-nos livres e, sem darmos por isso, adaptamo-nos.
A LIBERDADE deixou, assim, de ser problema. Tornou-se uma
evidência dirigida. Evita conflitos, neutralizando-os. Tudo desliza numa
superfície polída onde tudo pode circular, desde que nada se torne infiel.
Nesta conformidade, o submisso não é reprimido: é posto em movimento.
Oferecem-lhe escolha, pedem-lhe que cuide de si, que se
reinvente continuamente. Não há exterior, nem desculpas, muito menos evasivas.
O sujeito torna-se, então, o único responsável por dar forma a uma vida
previamente formatada. A liberdade adere a uma agenda que se oculta como tal e,
por isso, em silêncio, nos atraiçoa.
Move-nos a sermos “nós próprios”, ao mesmo tempo que
dissolve as condições de possibilidade dessa verdade. O que em nós é opaco,
contraditório, não rentável, é lentamente silenciado. A verdade torna-se,
assim, inviável num mundo onde tudo deve ser comunicável, partilhável,
convertível em valor.
O homem livre é, hoje, aquele que melhor se acomoda a este
regime de circulação. Aquele que se reconfigura no movimento contínuo de
competências, afetos e imagens. Não há interioridade que não se exponha. Não há
experiência que não ambicione reconhecimento. A liberdade acalma-se na
normalização.
E quanto mais nos movemos dentro dela, mais nos afastamos de
qualquer fundamento que não seja imediatamente funcional. A nossa verdade
torna-se, progressivamente, um resto, um ruído que escapa ao encadeamento. O
sistema agradece essa útil irrelevância.
A traição do nosso tempo não nega a verdade, gere a sua
dissolução. Não pelo interdito, mas pela exaustão; não pelo silêncio imposto,
mas pela presença intrusiva de uma voz onde tudo se diz para que nada se
sustente. A voz da LIBERDADE não nos cala: fala por nós.
Antecipadamente. Permanentemente.
E é por isso que resistir se torna quase impercetível. Já
não se trata de romper cadeias visíveis, mas de interromper a fluidez que nos
atravessa. De recusar uma evidência que se apresenta como natural. De
sustentar, contra a corrente, aquilo que em nós não se adapta. Talvez a verdade
comece aí, não como expressão, mas como obstáculo. Atenta a uma cultura de
mercado que vive da LIBERDADE, torturando-a.
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