quarta-feira, setembro 23, 2026

O TEMPO FICA

 


À medida que vou lendo e vivendo, achegando a filosofia à arte, vou entrevendo melhor a realidade do conhecimento. Pergunto hoje e a mim próprio, o que é o conhecimento senão o aperto de um ambiente condicionado, feito de suposições que nos obriga a interrogar?

Dou, pois, comigo a pensar que a indolência mental nos encaminha facilmente para o imediato. Aceitamos o que está diante de nós como se fosse evidente e, distraídos pelo tempo, deixamos de interrogar o chão em que fundamentamos a nossa maneira de viver. Há uma espécie de indiferença acomodada nos pressupostos que aceitamos sem os considerar.

Reconheço que a arte nos ajuda precisamente a interromper essa distração. Uma canção pode fazer-nos parar quando o tempo nos impulsiona para a frente. Pode repor-nos uma pergunta, uma memória, um sentimento que imaginávamos perdido. Pode fazer-nos perceber que aquilo que vivemos não desaparece só porque o tempo passa.

É também por isso que hoje penso e lembro Jorge Palma. A sua morte lembra-nos, de uma maneira particularmente dolorosa, que o tempo não se suspende. Jorge Palma partiu, mas a sua música ficou. Ficaram as palavras, as melodias, a voz, o piano, as canções que acompanharam vidas e gerações. Mais de cinco décadas de criação fizeram da sua obra uma presença na cultura portuguesa.

Com a idade e a experiência, descubro também que as verdades e os valores não vivem fora da história. Têm uma sequência, pertencem a determinados homens e a determinados tempos. O que num momento se apresenta como verdade pode, noutro, revelar os seus limites.

A arte, porém, tem uma relação singular com o tempo. Nasce num tempo, exprime um tempo, mas pode atravessar muitos outros. Talvez seja essa uma das formas mais humanas de contrariar a morte: não a vencer porque isso não nos é possível, mas deixar algo que continue a conversar com quem vem depois.

Talvez por isso a verdade que sempre procurei não seja um absoluto imóvel à espera de ser vislumbrado. Ela caminha connosco, atravessa a história, confronta-se com o possível e vai deixando o absoluto abrir-se às relatividades do tempo. Jorge Palma caminhou no seu tempo. Viveu-o, cantou-o e deixou nele a sua marca. Agora somos nós que ficamos com as suas palavras e as suas canções.

E talvez seja essa a mais funda homenagem que podemos prestar-lhe: não deixar que a sua morte transforme a sua presença em passado encerrado. O tempo passa. A vida passa. A morte chega. Mas há vidas que, pela arte, continuam a fazer-nos companhia. Jorge Palma é uma dessas vidas.


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