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domingo, abril 10, 2016

ESCREVE, AMIGO

 

michael_cheval_1_ak_thumbÉs um daqueles amigos que muito admiro, permanentemente instigado pelo desafio do escuro, daquele impreciso que te desconcerta, te parece desalinhado, mas que se te apresenta livre, sedutor e acertadamente indisciplinado. Mareias por águas bravias e outras dóceis e domésticas como se a vida não desnudasse o contraste. Curiosamente, respaldas-te naquelas e vives azedado no quotidiano das últimas. Não obstante, é nestas que refazes a saudável vitalidade e energia da tua fúria e encontras o irónico sossego do arrimo que te permite viver a vida que sabes escapar-te.

Por isso, tens de escrever para dar forma ao informe experimentado que te cabe no universo dessa infinidade de possíveis mundos e modos de vida, dando vida aos restos exclusos da desenxabida mas cuidada cena do tartufismo nomeável. Muda de palco e encena a tua história. Dá voz aos silêncios que tão bem soubeste guardar ao longo dos tempos. Sei que sabes escutar os murmúrios desses destroços empilhados e, mais do que escutar, perceber a sua linguagem e inventar as palavras com que o teu imaginário enlaçará o real, que nunca se apreende por inteiro, e o simbólico, que sempre nos surge incapaz. Escreve, amigo. Com nobreza, se fores capaz sem o calor embriagado da inquietação ou, com grandeza, escusando o afável aliciamento do cativeiro. 

Imagem retirada DAQUI

segunda-feira, julho 27, 2015

UM ACENO DE GRATIDÃO E AMIZADE

 

À Natália Rodrigues

imagesEla, a minha amiga, não é perfeita. Como se sabe, apesar da exacerbada altivez humana, nenhum de nós habita a ordem etérea dos deuses. Não obstante esta certeza, reconhecer a imperfeição é uma rara e incerta qualidade que advém de um trabalhoso e insistente exercitar. Talvez (mesmo) de um duro empreendimento onde a sensibilidade, a inteligência e a capacidade de sageza criam um singular saber de ouvir a sua/nossa imanente e humana história. Assim, Ela bem cuidou das suas defetividades – e como foi obrigada a cuidar delas… – e destas (e através delas) – não obstante a espessura e opacidade própria de uma qualquer historicidade – alcançar uma invulgar e assertiva, embora dadivosa, densidade humana. E como os lugares não são somente materialidade, eles, esses lugares, aclaram-se e embelezam-se com as suas gentes. E Ela sabe-o muito bem e desse saber maturado se fez incomumente sábia. Destarte – e em síntese – apenas me resta reconhecer (e agradecer), aqui e agora, o quanto foi aprazível estar, naquele seu lugar, com Ela.

sexta-feira, novembro 07, 2014

VOLTANDO AO TEMA DA FALSIFICAÇÃO DAS CLASSIFICAÇÕES ESCOLARES

foto_indexAo meu amigo Sérgio, a quem prometi uma resposta mais fundamentada sobre a minha postagem de 20 de setembro, intitulada CONTRABANDO OU APENAS GENTE DE MÁ NOTA?

Começo por apresentar ao Sérgio os meus cumprimentos e, junto com estes, as minhas desculpas pela demora da resposta há muito prometida.

Amigo Sérgio; sobre o tema em causa, expresso através de um texto necessariamente telegráfico (escrito de e para um blogue, logo curto, ao qual se fez acasalar um tom deliberadamente jocoso), muitas interrogações seriam possíveis e passíveis de serem colocadas, não só por estas características que acabo de mencionar como também, e sobretudo, pela complexidade do próprio tema.

No essencial, o que procurei ironicamente condenar foi o publicado espavento (e não propriamente o pasmo público) sobre os condenáveis comportamentos das instituições escolares no que às avaliações dos alunos diz respeito. E isto porquê? Porque os hosanas cantados aos celebérrimos rankings empalmaram, na altura e sem pinta de embaraço, a natureza diversa e intrinsecamente complexa da realidade educativa, fabulando a batota da homogeneidade (social, cultural e economicamente dizendo) sob a regência da batuta axiológica da justiça, orquestrando uma peça musical melódica onde o mérito se tornou o mote. Daí que, o espanto revelado atesta, para mim, uma de duas coisas; ou credulidade insciente ou tão-só ciente má-fé.

De uma forma sumária, passo (no entanto) a elencar apenas três dos tópicos (provavelmente os mais estruturantes) que sustentam esta minha perspetiva crítica, não entrando sequer na arquitetura matemática dos resultados que, pela sua conjuração, constrange as instituições escolares às inclassificáveis manobras, umas movidas por uma patética sobrevivência, outras catando, como convém neste mercado da educação, um prestígio indevido:

1. De uma forma geral, os rankings, nos seus múltiplos (e alguns verdadeiramente carnavalescos) campos de serventia, constituem um implemento precioso (deste impiedoso capitalismo neoliberal) que tem por função amamentar (leia-se, dar de mamar) a uma interminável e meliante concorrência (competição), justificando-os (os rankings) com base na suposta relevância social (diga-se, sistémica) das seriações daí decorrentes;

2. No domínio da educação, para além deste transversal tormento ideológico, os rankings escolares sofrem de algumas (outras) sérias e preocupantes distorções pois o processo escolar institucional, ao envolver a irrevogável responsabilidade ética da formação e do desenvolvimento de todas as crianças e jovens, faz com que seja da mais elementar honestidade e justiça ter-se (seguramente) presente que esta incumbência se inscreve num campo fortemente marcado pela diversidade (individual e sociocultural), ao qual acresce uma realização que se efetiva também e igualmente em contextos dissemelhantes e compósitos no que toca aos recursos, designadamente físicos e materiais.

3. Deste modo, neste quadro incontornável de assimetrias e desigualdades, desconsiderar as histórias autênticas que, sempre intrincadas e multifacetadas (e existindo massivamente), reclamam a (cons)ciência da diferença, da sensibilidade e da aceitação – feita de penosos diagnósticos e de engenhosidades incertas, eticamente persuadidos da certeza das necessidades das crianças e dos jovens – não posso deixar de perguntar; como se pode garantir, neste lôbrego e sectário espetáculo da simplificação, rigor na avaliação do que nas escolas se faz se não através de uma dramática invencionice ideológica assente numa colossal mentira social e institucional?

Termino, invocando aqui Bento de Jesus Caraça que não comparece, nestas circunstâncias, como tu podes imaginar, por acaso. Para além de constituir uma referência bem presente no espírito crítico que trespassa este escrito, foi ele que no, plano institucional e simbólico, nos aproximou. E ainda bem.

Um abraço amigo.

sábado, março 08, 2014

EM VÉSPERAS DE ABRIL - RELEMBRAR JORGE DE SENA

liberdade

 

CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.

 

 

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
a conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos
chegava até à raiz.


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever
com que palavras gritar!


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz do cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, 1979.

domingo, junho 16, 2013

domingo, dezembro 02, 2012

GRATO A NICOLAU SANTOS? UM ESCRITO QUE IMPORTA EVOCAR

jornalismoAcusamos hoje um tempo onde as liberdades de expressão, de imprensa e de empresa, como não podia deixar de ser, litigam legitimidades desencontradas. A obviedade das atrições daí resultantes, como se sabe, enleia os valores do jornalismo e da sua autonomia. Chama-se ao contraditório, entre outros, os critérios de independência, de rigor e de honestidade. Sem estes, ou sem as condições para o seu bom uso, trai-se a liberdade de imprensa e irremediavelmente desserve-se a responsabilidade social do jornalismo.

Esvai-se a ética, desencaminha-se a moral, afrouxa-se a lei e – nesta turbulência brumosa – os interesses, dos corporativos aos censórios de toda a espécie, açambarcam com destreza os consequentes mas tentadores extravios. Afloram então os valores editoriais e com eles força-se a vassalagem do jornalista à liberdade que lhe remanesce ou à serventia que aspira. Antes o enxovalho da obediência - quiçá prometedora - do que a penúria do desemprego ou a dor da incerteza. Ser-se pragmático não é assim (e neste contexto) condição de sobrevivência mas apenas e basicamente modo de vida.

Reconheço a simplificação do que acima está dito tendo perfeita consciência da complexidade do tópico em apreço, marcado como se sabe pelas múltiplas diferenças opinativas, quer de natureza histórica, filosófica ou política. No entanto, não deixa de ser no domínio dos media e nos tempos que correm de progressiva desregulação e concentração que, de modo conhecido e experienciado, a manipulação ideológica acontece sobre a informação, designadamente por parte dos poderes políticos associados aos grandes interesses económicos e financeiros. A comunicação social converteu-se assim e estranhamente, de modo amável, numa área auspiciosa de negócios. Acresce, contudo, que o sector financeiro há muito o havia enxergado e, sobretudo, a vem sabiamente confiscando.

A concentração das empresas neste campo do mediático, como se pode supor, não é apenas uma ameaça à liberdade dos jornalistas mas (no essencial e sobretudo) um espectro à liberdade de emprego. Os grupos de media constituem verdadeiros cartéis que, ao empregar a generalidade dos jornalistas e colunistas, ditam as regras e o futuro do trabalho daqueles profissionais. Qualquer jornalista que se porte menos bem ou se mostre incoadunável com um qualquer órgão de informação, apressa-se a esbarrar daí para a frente com muitas portas trancadas. É neste contexto ignominioso que o escrito atribuído a Nicolau Santos (ampla mas tardiamente divulgado) merece ser recordado, estimado e reconhecido. Como algures comentei, numa imensidão de sevandijas deparámo-nos com exceções que enobrecem o jornalismo e se engrandecem como homens. Como cidadão, pelo exemplo, estou sinceramente grato a quem o escreveu.

sexta-feira, maio 27, 2011

OBRIGADO … E ATÉ SEMPRE

 

agradecimentos 02 - POESIASMENSAGENS

Venho por este meio, que as novas tecnologias me disponibilizam, agradecer publicamente a todos os que me permitiram, pela densidade relacional, humana e social, sempre muito presente e intensamente vivida, crescer como pessoa e profissional ao longo deste caminho explorado enquanto avaliador externo, funções que exerci apaixonadamente desde 2002, no âmbito dos processos de reconhecimento, validação e certificação de competências (RVCC) e que o silêncio indesculpável da Agência Nacional (ANQ) para a Qualificação me diz ter chegado ao fim.

Entre eles, para além dos adultos a quem proximamente dedicarei um texto próprio, quero destacar os diretores, os coordenadores, os profissionais e os formadores dos respectivos Centros de Novas Oportunidades (CNO) com quem tive a alegria estimulante de partilhar perspectivas, reflexões, incertezas e paradoxos na busca perseverante de respostas necessárias e entusiasmantes na promoção sempre espinhosa e exigente desse propósito mais nobre da Educação de Adultos que é o da transformação social e do desenvolvimento inteiro das pessoas, tendo em conta a historicidade das suas realidades concretas e contextualizadas.