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quarta-feira, maio 30, 2012

É PRECISO TER LATA E NÃO TER …

 

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O estudo que o atual Governo solicitou ao Instituto Superior Técnico sobre a avaliação do desempenho no mercado de trabalho dos adultos participantes em processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), é claramente uma logração se tivermos em linha de conta a apetecida indução de se aferir (e inferir) a (e da) qualidade do referido processo na sua relação com a empregabilidade e a respetiva progressão salarial.

Como avaliador externo considero afrontoso que um Governo, em vez de explicar claramente ao povo português as razões profundas do desemprego (que tem vindo a crescer assustadoramente neste últimos anos), faça baixa política com as Novas Oportunidades (NO) procurando desqualificá-la de um modo tão grosseiro e indigno, desprezando todos(as) quantos(as) as têm servido e, sobretudo, rebaixando todos(as) aqueles(as) que, designadamente adultos, nelas se reviram e delas recobraram entusiasmos há muito perdidos.

Em vez de melhor estudar com rigor as razões das adesões massivas, das dinâmicas formativas entretanto geradas, das motivações múltiplas e diversas originadas, o Governo (na sua cegueira neoliberal) aproveita as recessões de toda a ordem (do desemprego aos salários) para, mais uma vez, de um modo falso e mesquinho, tornar individual e conjuntural o que todos sabem ser densamente estrutural. Se o Governo considera este critério de “desempenho no mercado de trabalho” valioso, não lhe resta outra alternativa que não seja a de generalizar a sua aplicação.

Mas para além de doloso, este Governo arrasta consigo um outro pecado; é só forte com os fracos e fraco (quando não cobarde) com os fortes. Não terá, com toda a certeza, coragem de embirrar com muitas das outras instituições formativas, nomeadamente universidades, que têm formado supostamente também para o dito “desemprego”. A introdução do documento é uma peça digna de ilusionismo político. Os seus artistas, com uma ligeireza argumentativa descarada, fazem desvanecer o muito que as NO e o RVCC trouxeram de bem, de bom e de positivo e celebram habilidosas prestidigitações no palco da tartufice política. Simplesmente vergonhoso.

terça-feira, maio 29, 2012

O ELOGIO ANUNCIADO DO POETA

 

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Recordar a propósito do RVCC, advertindo da saloiice revivalista dos tempos que correm…

 

APRENDER A ESTUDAR

 

 

 

Estudar é muito importante, mas pode-se estudar de várias maneiras....

Muitas vezes estudar não é só aprender o que vem nos livros.

Estudar não é só ler nos livros que há nas escolas.

É também aprender a ser livre, sem ideias tolas.

Ler um livro é muito importante, às vezes urgente.

Mas os livros não são o bastante para a gente ser gente.

É preciso aprender a escrever, mas também a viver, mas também a sonhar.

É preciso aprender a crescer, aprender a estudar.

Aprender a crescer quer dizer: aprender a estudar, a conhecer os outros, a ajudar os outros, a viver com os outros.

E quem aprende a viver com os outros aprende sempre a viver bem consigo próprio.

Não merecer um castigo é estudar.

Estar contente consigo é estudar.

Aprender a terra, aprender o trigo e ter um amigo também é estudar.

Estudar também é repartir, também é saber dar o que a gente souber dividir para multiplicar.

Estudar é escrever um ditado sem ninguém nos ditar; e se um erro nos for apontado é sabê-lo emendar.

É preciso em vez de um tinteiro, ter uma cabeça que saiba pensar, pois, na escola da vida, primeiro está saber estudar.

Contar todas as papoilas de um trigal é a mais linda conta que se pode fazer.

Dizer apenas música, quando se ouve um pássaro, pode ser a mais bela redacção do mundo...

Estudar é muito mas pensar é tudo.

 

NOTA – Agradeço à Maria Manuela Freitas, que ontem (28.05.2012) concluiu o seu processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências de Nível Secundário (CNO da BARAFUNDA - Associação Juvenil de Cultura e Solidariedade Social) e no contexto do seu trabalho citou este poema de Ary dos Santos.

sábado, maio 26, 2012

APONTAMENTOS COM RUMO INCERTO POIS INCERTAS SÃO AS DÚVIDAS

 

educacaoadultos_190Começo por dizer que sou daqueles otimistas, que alicerçado em testemunhos intensamente vividos, entendo que o processo Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) favorece (ou pode favorecer) a criatividade identitária. Todos nós reconhecemos que essa capacidade de nos descobrirmos está estreitamente ligada ao nível e à diversidade dos recursos de que cada um de nós dispõe ou pode dispor. Sejam eles económicos, sociais ou culturais. A fraqueza dos recursos (como toda a gente sabe, até por experiência própria) limita naturalmente a quantidade e a variedade dos si mesmos possíveis.

Esta desmultiplicação de si mesmo, apoiada por recursos suficientes, permite acrescentar novas identidades a um conjunto aberto já diversificado, tornando (assim) a estrutura das personalidades mais ricas e subtis. Pelo contrário, os que têm menos recursos percebem e sentem (com frequência) estas imposições como fatores de intensos incómodos. Qualquer processo identitário supõe distanciamentos (por vezes dolorosos) face às socializações que nos determinaram ou determinam. Esses distanciamentos pressupõem (como é fácil de admitir) pontos de apoio, horizontes de identificação possíveis e recursos adequados que os possam proporcionar.

Sou também daqueles (talvez ingénuos) que acredita que o processo de RVCC pode, neste domínio, produzir trabalho válido. E é neste sentido que vos apresentarei alguns apontamentos em que me apoiarei para alargar um olhar sobre a educação de adultos e do papel que o RVCC pode aqui assumir, na convicção de que para nos fazermos temos de duvidar de algumas certezas e (sobretudo) não recear caminhar para novos rumos, procurando as respostas mesmo que através da incerteza das próprias dúvidas.

quinta-feira, maio 10, 2012

ADMITINDO AS DIFERENÇAS, TANTO FAZ NA PRAIA COMO NO RVCC…

 

HORIZONTESO processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) iniciou-se em 2012 num contexto social e laboral significativamente diferente do atual, reportando em particular à taxa de desemprego de cerca 5% da altura em confronto com a sua análoga recente que se cifra hoje num valor superior a 15%. Ao convocar o olhar para estes dados pretende-se cotejar realidades e, dessa acareação, tornar mais claro o interesse que as perceções das condições de mercado apresentam enquanto fator condicionante de projetos que, pelo facto de o serem, presumem uma óbvia antecipação incessantemente idealizada.

Sempre considerei (e expresso-o aqui de um modo conscientemente simplificado) que o mérito maior do RVCC não se encerra na certificação em si mas nas múltiplas e diversas agitações que a experiência formadora (inerente ao processo) poderia (e deveria) germinar, designadamente tendo em conta a curta escolaridade da generalidade dos adultos e tudo quanto nesta condição, por conformação, se foi naturalmente incorporando. Se de início assim concebia o RVCC, ao fim destes dez anos de contacto intenso com o dispositivo, as pessoas e as suas realidades e anseios, sem receio de qualquer tipo de imprecaução, não posso deixar de ratificar (hoje) como certo esse meu pressentimento inaugural.

O adulto termina o RVCC sentindo-se com frequência (e manifestando-o por vezes de modo extasiado) uma pessoa diferente daquela que havia entrado. Em abono da verdade, outra coisa não seria de esperar, tendo mesmo em conta que muitos o iniciaram apenas com o manifesto propósito da certificação. Todavia, esclareça-se desde já que esta constatação não retira qualquer legitimidade ao intento, bem pelo contrário pelo que a seguir se procura atestar. Assim, e no desenvolvimento desta confirmação, direi que conhecer o que leva o adulto (após o processo) de diferente consigo é que interessa indagar e aclarar pela sua relevância futura. No entanto, cedendo esta empreitada para outros fôlegos, ousaria afirmar a suspeita de que as fronteiras da ambição dos adultos se foram estendendo gradativamente na justa proporção das descobertas de si que em si habitavam adormecidas e desacreditadas.

Percursos, representações, projetos e investimentos no domínio da formação, compõem um entrelaçado de aspetos que, na sua conjugação gradualmente idealizada, arquitetam as realidades nas quais se inscrevem os rumos possíveis de intensas buscas educativas ou (tão-só) de diligências formativas mais ou menos urgentes. Assim sendo, é na elasticidade deste amplo quadro de expectativas e de possibilidades que se fazem então as motivações, se praticam as atitudes de conquista da obra formativa, se individualiza a perceção da utilidade das suas dinâmicas e se refina a consciência dos recursos para o conseguir. Fazer da formatividade uma estratégia obriga a um instituir que, não desobrigando as referências do passado, as revigora nos horizontes que se futuram. Daí, as mediações, os possíveis e, sobretudo, a importância da bondade das primeiras e da inspiração imprescindível dos últimos.

Chegar ao processo apoucado pela situação de desemprego e ter como horizonte a mesmidade acrescenta às dificuldades congénitas mas desafiantes do processo uma lassidão que atrapalha e perturba o entrelaçamento anteriormente referido. Tudo aparenta menos entusiasmante e, mormente, muito mais desengraçado ao viver-se nessa fronteira que soma angústia a uma esperança tristemente abalada. A racionalidade estreita-se e com ela a energia da reinvenção enfraquece. O peso do passado endurece identidades e sitia os adquiridos, sejam eles feitos de hábitos ou de convicções. O adulto, reconhecendo-se delimitado, escusa a alegria da liberdade no exercício de uma reflexividade que ele sente historicamente marcada e condicionada pela cruciante verdade alcunhada de “falta de emprego”. Pois é. Como se diz nestas circunstâncias, não basta estar numa praia edénica fazendo férias; importa andar animado e apreciar lá estar. Admitindo as diferenças, tanto faz na praia como no RVCC.

Imagem retirada daqui

sábado, maio 05, 2012

A FOLHA BRANCA QUE NÃO ESTÁ EM BRANCO

 

Texto reformulado

Ao longo deste tempo, na qualidade de avaliador externo, tive oportunidade de ler variadíssimas histórias de vida. Percebe-se que se observa o passado com as referências de hoje e com representações diferentes daquelas que, nesse tempo, orientaram as leituras e guiaram as interpretações das vivências que agora se procuram (de novo) situar e (re)significar.

folha de papel homepen

O peso do passado que se impõe, a convenção que sempre dificulta e a memória endurecida por dizer o dito vezes sem conta, tornam-se embaraços às exigências da reflexão que tem por missão reconstruir, uma vez mais, a história do vivido. As pertenças, as particularidades e os pressupostos, nem sempre claros, marcam a subtileza da reinvenção do relato. A última das compreensões não dispensa, no seu deslizar vacilante, os entendimentos que a precederam num processo reconhecidamente penoso pela insatisfação do que, no íntimo, se mostra inquietante e duvidoso.

A historicidade que situa o testemunho e a reflexão que a completa (por correções e aclaramentos) fazem-se (assim) num movimento de leituras e juízos que a narrativa que se conta procura articular suprimindo vazios e discrepâncias que atrapalham a limpidez da história biográfica. E é no preciso momento da escrita que a dificuldade de escrever numa folha de papel que não está em branco, a consciência desperta para a riqueza do que é perplexo, equívoco e maleável.

É esse o instante inevitável da (re)elaboração e da (re)significação que, paradoxalmente, nos apresenta e exibe hoje o que somos ou o que, não sendo, desejamos ou procuramos ser, independentemente das histórias já escritas na folha branca onde escrevemos.

quinta-feira, junho 23, 2011

Educação e Formação de Adultos pouco escolarizados e a Iniciativa Novas Oportunidades

 

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À minha amiga Dina Bernardo

Estabelecer uma relação entre a Educação e Formação de Adultos (EFA) e a Iniciativa Novas Oportunidades (INO) é trazer para um debate exigente e espinhoso, sobretudo pela sua natureza ideológica e axiológica, a importância da capacidade individual e colectiva das aprendizagens, designadamente dos adultos menos escolarizados, tendo bem presente os atrasos estruturais nos planos da educação e da formação que se verificam na sociedade portuguesa, com as consequências sociais, culturais e económicas que se conhecem. Não sendo possível nesta breve reflexão inscrever tal aprofundamento, passo a expressar apenas algumas notas que considero relevantes na relação em análise.

 

sexta-feira, maio 27, 2011

OBRIGADO … E ATÉ SEMPRE

 

agradecimentos 02 - POESIASMENSAGENS

Venho por este meio, que as novas tecnologias me disponibilizam, agradecer publicamente a todos os que me permitiram, pela densidade relacional, humana e social, sempre muito presente e intensamente vivida, crescer como pessoa e profissional ao longo deste caminho explorado enquanto avaliador externo, funções que exerci apaixonadamente desde 2002, no âmbito dos processos de reconhecimento, validação e certificação de competências (RVCC) e que o silêncio indesculpável da Agência Nacional (ANQ) para a Qualificação me diz ter chegado ao fim.

Entre eles, para além dos adultos a quem proximamente dedicarei um texto próprio, quero destacar os diretores, os coordenadores, os profissionais e os formadores dos respectivos Centros de Novas Oportunidades (CNO) com quem tive a alegria estimulante de partilhar perspectivas, reflexões, incertezas e paradoxos na busca perseverante de respostas necessárias e entusiasmantes na promoção sempre espinhosa e exigente desse propósito mais nobre da Educação de Adultos que é o da transformação social e do desenvolvimento inteiro das pessoas, tendo em conta a historicidade das suas realidades concretas e contextualizadas.

quarta-feira, maio 18, 2011

AS NOVAS OPORTUNIDADES E OS VELHOS PRECONCEITOS

 

01511A dupla Sócrates/Maria de Lurdes trataram, do meu ponto de vista, mal a educação e muito mal os professores. No entanto, não vou argumentar sobre essa realidade controversa e mais geral. Vou apenas referir-me à Iniciativa Novas Oportunidades (INO), questão aqui em apreço, tendo em atenção o que ontem pude ouvir no quadro fragmentado, e sempre simplificado, do folclore noticioso. Para descanso meu e de outros, uma nota prévia; a 5 de Junho não votarei Sócrates (“jamais”) e muito menos em Passos ou Portas. A nota prévia justifica-se porque quero afirmar, convicta e ousadamente, que a INO constituiu, talvez, a medida de política formativa mais relevante e positiva tomada pelo governo PS. Ao ouvir ontem - através da dita escolha noticiosa da sempiterna “inocência” da comunicação social - o cinismo aferrado dos interesses políticos de Sócrates, Passos, Portas e até de Carrilho, cumpre-me telegraficamente dizer o seguinte:

 

sábado, abril 09, 2011

A PROPÓSITO DAS BIOGRAFIAS FORMATIVAS – UMA PERCEPÇÃO

 

Biografias

O que se é tem a ver com o que se pensa e com os sentidos que se dá às situações de vida. A condição humana de seres pensantes e reflexivos é indissociável da historicidade que acompanha as memórias de cada um. Aos acontecimentos que se recordam sobrepõe-se a descoberta das relações que as explicam e as interpretações de sentido que se lhes acrescentam. Procura-se a compreensão do que é passado com os referenciais de hoje e com as representações que já deixaram de ser as da altura. Mobiliza-se, deste modo, a capacidade reflexiva através de uma atribuição que se realiza na busca de uma proximidade intrinsecamente humana do que foi e está mais ou menos distante. Nesta ocasião, formam-se as necessárias e inevitáveis significações crendo em racionalidades carregadas de uma subjetividade interessada. E é, também, nesta permanente e continuada construção, de tempos e momentos cruzados, que se sustenta, assim percepciono, a formatividade que nos projeta.

sexta-feira, abril 01, 2011

A INICIATIVA DAS NOVAS OPORTUNIDADES – DAS REALIDADES À CONSTRUÇÃO DE POSSIBILIDADES


Pensar e refletir com base num percurso profissional naturalmente formado por factos e situações de convivência exigente e contraditória que prefiguram a complexidade dos referentes que orientam, no fundo, a nossa atividade enquanto profissionais docentes, constitui uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma ambição que, espontaneamente, estimula a disposição e a motivação para uma procura empenhada e argumentada de sentidos e significações para algumas indeterminações que esses mesmos factos e situações definem e que, no plano lógico, justificam justas preocupações éticas, políticas, profissionais e deontológicas.

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Exprimir ideias ou pensamentos sobre a temática das aprendizagens, da sua de avaliação e das suas consequências nos planos do sucesso (ou do insucesso), envolve a consciência óbvia de que se entra num universo de múltiplos poderes e racionalidades, dos seus dispositivos e mecanismos de ação, realidade essa que interessa prospectar e analisar, de modo a examinar a complexidade das suas operações, natureza e formas de disposição. Perante a noção exata desta complexidade, nada me custa reconhecer a desconformidade das minhas múltiplas e diversas dificuldades face à vontade e à necessidade que me anima em contribuir, ainda que modestamente, para um esclarecimento útil e proveitoso dessa mesma problemática.

No entanto, não me parece excessivo ou mesmo imprudente dizer, numa perspectiva histórica mais alargada, que a escola tem funcionado neste nosso mundo ocidental como um lugar vocacionado para articular íntima e eficientemente o(s) saber(es) com o(s) poder(es) num sentido de cumprir o ideal da formação de “ordens” e “representações” capazes de educar o “outro”, pese embora as diferentes formas que se determinam com esse “outro” e, nesta perspectiva, destaque-se as formas que se estabelece, em especial, sobre esse “outro”.

É neste quadro de continuidade da ou das culturas e do seu porvir nem sempre linear, quando não crítico ou mesmo antagónico, que surgem as “certezas prontas” provenientes dos múltiplos dogmatismos (dogmatismos, aliás, de toda a ordem – política, pedagógica ou mesmo científica) ou, de igual modo, as “certezas prontas” das “novidades” que propõem uma “nova visão” alternativa da trama educativa, de aparência sedutora na sua intenção humanista e social. Assim sendo, neste quadro sobranceiro das “certezas prontas”, contraponha-se um saber profissional, de natureza arqueológica, que progressivamente se vai sedimentando no dia-a-dia do professor, feito de empenhadas experiências reflectidas e exigentes de resistência e vigilância àqueles apelos de uso fácil, procurando questionar a relação da nossa ação profissional e de cidadania com as verdades múltiplas das realidades educativas, tendo presente a busca inteligente e clara do que se identifica como verdadeiro e, desta forma, esclarecer a si e aos outros as razões que legitimam esta necessária e atenta disputa.



Falar em saber profissional, leva-me a expressar a convicção de que os professores, no contexto da ação educativa institucional, são os atores sociais provavelmente mais aptos na utilização dos sistemas de conhecimento abstracto para mediarem a distância controversa e exigente entre os que produzem esse conhecimento (por vezes, marcadamente disciplinar) e o terreno social e educativo de ação, porque, para além do reconhecimento e a responsabilidade sociais que lhes são conferidos, o seu saber experiencial e reflexivo e o conhecimento concreto e situado das realidades (humanas e sociais), favorecem a recontextualização adequada e relevante do uso desse mesmo conhecimento.

Tendo em atenção o que pretendo dizer, passo de imediato, a uma possível e muito pessoal aproximação à Iniciativa das Novas Oportunidades. Assim sendo, a questão que se me coloca é a de como combinar, neste quadro da Iniciativa das Novas Oportunidades (INO), os temas das aprendizagens, da avaliação das aprendizagens e do sucesso ou insucesso daí decorrente. Eis, portanto, o estímulo que vou aceitar, numa linha de lealdade do que atrás defendi, enunciando num dos seus dos seus aspectos mais indicativos, as controvérsias que se formam à volta desta Iniciativa, não apresentando propriamente respostas mas dando a forma de dúvidas a esses pontos de vista manifestos.

Como introdução, permitam-me que apresente uma leitura, a minha, de um prefácio de António Nóvoa a um livro de Rui Canário sobre a temática da Educação de Adultos. Ao longo da leitura desse texto senti-me provocado a encaminhar a minha preocupação – tendo presente essa ideia mais ou menos hoje socialmente consentida de educação e aprendizagem ao longo da vida – para três elementos fulcrais na justa medida em que eles se constituem como pontos de apoio para o convite a um olhar mais vasto, talvez mais completo e, com toda a certeza, mais compreensivo sobre a abrangência do tema em debate e que se inscreve na natureza complexa e inescapável da permanência educativa e formativa das pessoas ao longo dos seus percursos de vida e dos diferentes contextos que os significam.

Sobre o elemento “tempo”, António Nóvoa leva-me a admitir que a época em que se distinguia o “tempo de escola” do “tempo de vida” é um passado que o presente obriga a repensar e, através dessa reconsideração, alcançar, imaginar e fazer surgir novas e necessárias ideias e perspectivas.

Sobre o elemento “lugar”, António Nóvoa faz-me interrogar como deve a escola, na sua afirmação institucional legítima, com um estatuto socialmente legitimado e com responsabilidades legitimadoras no campo dos saberes e das qualificações, relacionar-se com outros lugares de educação e formação, onde as oportunidades educativas acontecem, por vezes, de uma forma intensa, útil e marcante sob o ponto de vista pessoal e colectivo.

Sobre o elemento “saberes”, António Nóvoa lembra-me, que há muitos saberes e procedimentos que, aparentando ser semelhantes, são claramente desiguais na sua natureza, formando dissemelhanças que convém considerar e reconhecer nas suas diferenças e alcance. Percebe-se, de modo intuitivo e sem correr o risco condenável de aventuras epistemologicamente repreensíveis, que nem todos os saberes cabem no livro da escola nem se produzem nos seus métodos, pese embora o reconhecimento socialmente generalizado da sua importância, tendo em conta o que ela proporciona (ou devia proporcionar), no que ela se adquire e aprende (ou se deveria adquirir e aprender) e é (ou devia ser) no que respeita ao desenvolvimento cognitivo e educativo de crianças e de jovens.


Selecionei algumas notas que me merecem alguma atenção, mais num propósito de pôr em questão do que dar ou apresentar respostas:

Em primeiro lugar, permitam-me que refira alguns números expressivos que, pela sua ordem de grandeza, merecem um exame exigente e desapaixonado; as novas ofertas de Educação e Formação de Adultos (EFA), que não se reduzem aos processos de RVCC, tem hoje cerca de 1 milhão e 500 mil inscritos e no campo das certificações já realizadas esse número ronda os 500 mil adultos validados. Perante estes números, algumas perguntas se impõem fazer; o que está a acontecer? Com que impactos, ganhos e perdas nas esferas do individual, social e económico? Estaremos em presença de uma revolução silenciosa no mundo das aprendizagens, como bem questiona o Professor Luís Rothes?

Neste panorama impressivo, não será pertinente questionar se a EFA é já hoje mais um sistema ou, ainda e tão-só, um conjunto generalizado e diversificado de práticas mais ou menos localizadas? Seja qual for a ideia que em cada um de nós se vai formando, é inescapável o desafio que esta realidade coloca, ou seja, com base no reconhecimento destas transformações, a EFA pode vir ou deve constituir-se num efetivo sistema de massas? No contexto destes números que causam estranheza, uma ilação é admissível; o Estado é encarado, provavelmente por estes adultos, e em particular pelos que tem respondido positivamente à INO, como um Estado não hostil mas, com toda a probabilidade, considerado como um Estado potencialmente aliado. E a ocorrência desta subjetivação cada vez mais alargada, designadamente junto de uma população menos escolarizada, não é algo que se possa depreciar política e socialmente enquanto condição relevante em termos da evolução próxima da educação e formação de adultos.

No entanto, as percepções valem o que valem, mas neste contexto complexo e disputado de subjetividades e de conflitualidade das racionalidades que delas emergem, duas perspectivas se apresentam, designadamente no âmbito do RVCC. Uma das perspectivas, dá por certo que a produção massiva de certificados escolares tem vindo a constituir-se num mecanismo renovado de confirmação das desigualdades sociais. A outra, mais optimista, considera a INO e o processo RVCC como uma aposta mais próxima da ideia de um serviço público e, sobretudo, de uma ideia em prol de uma mudança social mais comprometida com a democratização da democracia vigente
[1].

O campo da EFA, sendo um sector específico e especializado onde as dimensões do “educativo”, do “sociocultural” e do “económico” se defrontam numa interação nem sempre tranquila, é que se torna necessário esclarecer as diferentes lógicas em disputa que permitam, de alguma forma, satisfazer, numa perspectiva de animação comunitária, a necessidade de garantir aos adultos as oportunidades de conseguirem diplomas escolares e, concomitantemente, fomentar a posse e o uso de competências de literacia, sem esquecer, porventura, o desenvolvimento de uma educação pós-inicial que aborde criticamente as relações de poder desiguais da sociedade atual promovendo uma lógica universalista da ação da EFA que não se torne num mero dispositivo paliativo ao desvalorizar projetos de emancipação pessoal e social dos cidadãos em geral e, em particular, dos mais desfavorecidos.

É neste quadro, onde a politicidade das intervenções é evidente e expressiva, que importa tornar claro a exata dimensão, em termos quantitativos e qualitativos, das instituições e organizações envolvidas no âmbito das respostas à EFA – anteriores a esta fase massiva da INO – com projetos político-educativos próprios de cariz social ou integrados em intervenções de desenvolvimento local. A verdade destas realidades e da sua dimensão, que de modo algum pretende por em dúvida a sua qualidade, valor e legitimidade, constitui informação relevante para debater com seriedade, embora sem descuidar a necessidade da urgência, os dilemas ou aspectos críticos que se colocam a este campo da EFA e das propostas políticas mais imediatas. Aguarde-se o pós atual crise política e a nova governança. O regresso massivo dos adultos à "escola" constitui uma força social que não deve, ou melhor, não pode ser já desprezada ...

[1] Rossana Barros, na sua Etnografia Crítica em Educação de Adultos, A Criação do Reconhecimento de Adquiridos Experienciais (RVCC) em Portugal (pag. 205).

segunda-feira, março 21, 2011

A RELEVÂNCIA DO TRABALHO SOBRE OS REFERENCIAIS DE COMPETÊNCIAS-CHAVE

 

Uma face da temática relativa à Educação e Formação de Adultos (EFA) que interessa pôr em questão tem a ver com o processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) na sua relação de aprendizagem com a formação e o desenvolvimento (das pessoas e das comunidades) no quadro mais amplo da Educação e Formação ao Longo da Vida.

 
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Começo por dizer que considero à partida importante que o processo de RVCC não seja, nem possa ser pensado, como um ponto de chegada de um decurso que, sublinhe-se, é necessariamente conjuntural e acontece num momento de certificação em grande escala. Tomá-lo como ponto de chegada seria assumir uma visão exígua, deficiente e, provavelmente, inclinado à pia fraude. O RVCC, apesar de se afirmar como um processo de validação e certificação de competências, tem de ser encarado como um momento dinâmico de um processo educacional mais amplo e permanente que, ao recolher desta perspectiva o alcance que importa fazer valer, seja capaz de (trans)formar as pessoas e as suas condições de existência.

Uma política que se anima nas estatísticas recorre e dá valor a uma retórica inclusiva que se dissimula na realidade social e humana excludente e se deixa levar pelo impudor de uma lógica paliativa que difunde um discurso enganador à volta das oportunidades e da empregabilidade e que, como consequência, apenas contribui para distribuir esperanças dificilmente realizáveis. O que merece ser desejado é, provavelmente, coisa diferente, ou seja, a valorização do processo na sua dimensão formativa consubstanciada no balanço de competências que nele se inscreve, tendo em vista favorecer a formatividade, necessariamente presente, nos projetos futuros, pessoais e colectivos, dos adultos envolvidos. Distante disso, e com efeitos perversos, é o empenhamento obstinado na imobilidade da ideia da avaliação sumativa, em desfavor do valor intrínseco da função formativa aqui referido, dando uma atenção desmedida aos diplomas e às certificações como objectivos quase únicos do reconhecimento e da validação.

É neste contexto e perspectiva que se pode e deve colocar uma consideração essencial, ou seja, questionar o foco que se privilegia ao longo do processo de RVCC, o do fechamento no individual ou, diferentemente, o foco na relação aberta do adulto com o outro e com o meio. Perante tal questionamento a diferença constitui-se na importância que se confere à existência ou não de espaços para o debate de problemas comuns e, consequentemente, na valorização das abordagens partilhadas e reflectidas de possibilidades, naturalmente diversas, de perspectivação e ação. Em jeito de conclusão, poder-se-á discutir se o trabalho sobre a explicitação das evidências no processo de reconhecimento e validação deve favorecer ou não novas formas de perceber e perspectivar o social e o mundo e de agir sobre eles de modo mais informado e ajustado?

Proporcionar situações que favoreçam, neste quadro, o debate e o esclarecimento das relações sociais e de poder desiguais é, igualmente, um desafio ético que não se pode deixar de inscrever na dimensão reflexiva do processo. As realidades sociais e as condições de existência devem constituir objecto de questionamento de modo a impedir que possam continuar a ser pensadas como inevitabilidades. É neste contexto de preocupações que algumas perspectivas se apresentam e se anunciam neste campo da Educação de Adultos (EA) e que interessa reter. A EA como um lugar e um espaço social onde a crítica realmente acontece e a busca de alternativas constitui um desafio claro de cidadania e de educação, proporcionando ao adulto situações de análise da sua situação pessoal e da sociedade em que se insere, de modo a trabalhar e a apurar a sua consciência nos planos do social e do político. Ou, longe disso, a ambição fica-se pelo meramente técnico e instrumental, oscilando entre um individualismo possessivo e o poder globalizado da economia.

Por último, acrescente-se que o factor tempo constitui um elemento decisivo porque dele depende, como condição indispensável, a qualidade do trabalho a desenvolver nos planos formativo e metodológico. Os momentos incontornáveis de compreensão e maturação do processo, de exploração pessoal e partilhada das biografias formativas dos adultos face às exigências do referencial e, por fim, as contrariedades decorrentes das dificuldades de escrita no desenvolvimento de um portefólio reflexivo, exigem tempo, serenidade e perseverança. O reconhecimento generalizado das fragilidades de natureza educativa e cultural da grande maioria dos adultos portugueses, que ocorrem natural e logicamente de escolaridades curtas, convoca metodologias e suportes de mediação em que o recurso tempo não é dispensável, no sentido de facilitar e favorecer a ocorrência desejável das autonomias que se pretendem fazer crescer.

O terreno dilemático acima aludido, associado a esta questão incontornável do tempo, traz à colação a possibilidade ou não de se considerar a mudança social como um propósito maior, fulcral e legítimo no âmbito da educação e formação de adultos. Assim sendo, a questão pertinente que se pode ou deve colocar é esta; será possível aos Centros de Novas Oportunidades (CNOS) trabalhar o referencial de competências-chave neste sentido crítico e transformador, das pessoas e dos seus contextos de existência, ou, pelo contrário, aos CNOS não resta outra alternativa que não seja a da renúncia, por filosofia ou por incapacidade, de considerar a mudança social como propósito educativo?

UM REGRESSO QUE SE SAÚDA

Texto de 04MARÇO2010
As aprendizagens que se fazem são, obrigatoriamente, coniventes com a sua utilidade, com o sentido que se lhes confere e com o significado que se lhes outorga, no percurso inseparável do crescimento e desenvolvimento das pessoas. Daí, a importância do exercício contextualizado da significação dos saberes, necessidades, interesses e expectativas. Persiste-se, apesar desta constatação, em considerar que o conhecimento se funda na representação de um mundo que é exterior e independente de quem o procura reconhecer.
 
novas
Relacionar o futuro, a vida e a formação, não é harmonizável seguramente com esta forma de pensar. O ser humano não é, igualmente e em absoluto, marcado pela indiferença e pela passividade. Ele persegue objectivos ou reage a perturbações de desconforto e de desassossego, embora os medos e as inseguranças encubram essa verdade. O homem sente uma necessidade profunda de uma ordem compreensível e, particularmente, afectuosa para o seu mundo vivencial.
 
É humanamente natural repetir as experiências consideradas agradáveis e evitar outras que originaram apoquentações. Acerca de umas e de outras, reflete-se e desenvolve-se no ser humano um tipo de conhecimento que se lhe adequa e constitui esperança de ajuda para o seu futuro. O conhecimento não institui, nesta linha lógica de raciocínio, uma representação pura do mundo. Envolve projetos de ação, conceitos e pensamentos que lhe são supostamente proveitosos e que, de modo gradual, se alargam num processo integrador de maior complexidade.
 
A escola não merece ser, como tradicionalmente se decreta, apenas um momento de preparação para a vida. Ela deve ser evidentemente valorizada como um espaço vocacionado para a produção de aprendizagens essenciais sem, contudo, deixar de ser um lugar de vida por excelência. Negligenciar este último aspecto é desvalorizar histórias e testemunhos bem significativos daqueles que nela viveram e dela retiraram coisas boas e outras menos boas, quando não, algumas más ou mesmo irreparáveis. Para a vida e para o futuro, deles e dos outros.
 
Não há vida sem sentido pelo que se segue ou persegue e pelo que nesse movimento se vai conhecendo e apreendendo. A história reflexiva de uma vida não é um simples relato de um caminho percorrido. Os trilhos de outrora são hoje outros lugares cuja compreensão obriga à difícil, e por vezes dolorosa, conquista ao desconhecimento da significação que ficou por esclarecer. Se assim é, as fontes do sentido e da reflexão não podem ser dispensadas quando se pretende atingir aquela matriz identitária que organiza os interesses, as vontades, as motivações e que, em consequência, anima a ação humana, individual e colectiva.
 
Emancipar é tornar o caminhar humano mais livre, fazendo concordar as esferas do sentido e da ação, acreditando que não há sentido no mundo, nem tão pouco que o mundo apresenta um sentido que importa procurar ou buscar. O sentido que aqui se defende, subentende uma compreensão feita vontade ou desejo que a linguagem e a razão dos homens multiplica através das palavras, dos seus interesses, valores e projetos.
 
O sentido não se procura onde se está, mas para onde se pretende ir, não está no que se é hoje, mas no que quer ser no futuro e, sobretudo, não está na realidade que agora se habita, mas no amanhã que se ajuda (ou não) a construir. A relação com o futuro passa, então, por criar renovadas possibilidades para além das virtualidades que a esperança e o optimismo salutarmente transportam. Ação, projeto, vontade e pensamento são, entre outros, elementos que se associam no seu processo de interação e combinação através dos saberes, das competências e dos valores que suportam o seu decurso.
 
Neste quadro de referências, interessa que o universo das competências não se limite aos domínios técnicos e instrumentais da empregabilidade e da profissionalidade. Deve-se estender esse universo às competências emancipadoras, fundamentalmente às competências sociais e culturais, através do questionamento crítico sobre o que rodeia e domina a vida das pessoas, desocultando os enredos da alienação que as acompanha.
 
Querer e saber construir futuro passa por uma concepção de escola onde todos se possam sentir mais fortes e mais dignos e onde as correntes de afeição e de fraternidade humanas constituam, entre outros, alicerces primordiais de um reanimado empreendimento na promoção e aperfeiçoamento de um amanhã diferente e melhor para todos. Saúde-se, então, o regresso de centenas de milhares de adultos ao mundo da educação e da formação e que, a verdade e coerência políticas evitem uma decepção histórica irremissível.

domingo, março 20, 2011

RVCC – HISTÓRIAS DE VIDA E IDENTIDADES

Texto de 17ABRIL2010

A oportunidade de ler, ao longo destes últimos anos, muitas centenas de histórias de vida na qualidade de avaliador externo, no âmbito do processo de reconhecimento, validação e certificação de competências (RVCC), permite-me partilhar uma breve reflexão que pode ter algum interesse no plano da educação e formação dos adultos e não só.

 Começo por manifestar, que uma das dimensões de análise que sempre privilegiei, e continuo a privilegiar, é a da apreensão da forma como o adulto se apresenta e se define como pessoa ao longo das narrativas. Essa significação desenvolve-se e expressa-se, na generalidade das vezes, através da enunciação de características que ele estima como necessárias e representativas da sua pessoa enquanto ser humano.
 
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No fundo, o adulto apresenta-se através da(s) sua(s) identidade(s), sem ter disso uma consciência clara. Situa-se nos seus espaços múltiplos e diversos de pertença e expressa, por aceitação ou oposição, os valores que lhe favorecem a orientação ou, pelo contrário, lhe sugerem desafios. Em síntese, o adulto expõe nas suas narrativas, para além das características pessoais próprias, os momentos e os elementos mais significantes do seu processo evolutivo de (trans)formação como pessoa.

 

Particularmente curioso é verificar a opacidade que obscurece a relação entre essas identidades, os contextos que as constituem e o exercício de uma vontade própria contextualizada que se confunde com uma “liberdade” feita de constrangimentos, compromissos e identificações que escapam à consciência. A culpabilização indevida do adulto em inúmeras situações, onde o abandono escolar apenas constitui um entre muitos exemplos esclarecedores, revela exatamente isso. Ou seja, o relato dessas situações apresenta interpretações imperfeitas que, sendo mais marcadas pelo horizonte social e cultural do adulto, aparecem como escolhas pessoais sentidas e confessadas como soberanas.

A metodologia assente na história de vida, para além dos seus objectivos mais instrumentais, apadrinha reflexões relevantes que permitem a descoberta de “outros significantes” que, logicamente, não deixam de favorecer o diálogo do adulto consigo próprio e com os outros no esclarecimento de vínculos múltiplos que resultam da inevitabilidade decorrente do carácter dialógico e intrínseco da condição humana.
 
Como se sabe, é pela comunicação que os homens estabelecem interdependências, se reconhecem uns aos outros, celebram afectividades e promovem sociabilidades.
Neste universo de vínculos múltiplos e de natureza diversa é que o adulto vai constituindo a(s) sua(s) identidade(s) e aperfeiçoando a sua própria individualidade. Saber quem se é passa por se reconhecer o seu mundo, ou seja, trazer à consciência as comunidades produtoras de sentido a que se pertence. Os adultos organizam a complexidade da relação que estabelecem face aos outros e ao mundo através da(s) suas identidade(s). Deste modo, refletir sobre a sua história de vida não é mais do que o propor ao adulto que reescreva a história dos seus compromissos, limites, inclusões e exclusões, inscrevendo nela crenças, valores e sentidos.

No entanto, por vezes, rejeita-se a história e desafia-se a(s) identidade(s). Mas como nos diz Pio Abreu, em “Quem nos faz como somos” (Edições Dom Quixote) “ … se a identidade for aberta à experiência, a mudança não faz mais do que enriquecê-la”. A fase de reconhecimento, sem prejuízo das etapas seguintes (validação e certificação), pode e deve apoiar aquela abertura, isto é, fomentar a passagem da fronteira pessoal à construção histórica e narrativa da(s) respectiva(s) identidade(s).

DUALISMOS MAL RESOLVIDOS

Texto de 06ABRIL2010
Dissociar aprendizagem de desenvolvimento é separar a tarefa a executar do sujeito que a deve cumprir. Não é obrigatório ser-se perito para entender que as aprendizagens estimulam o desenvolvimento e este beneficia aquelas. Aliás, no meu despretensioso ponto de vista, as aprendizagens só são verdadeiramente educativas se concorrem para o desenvolvimento humano na sua multidimensionalidade.
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Por outro lado, e ao contrário de muitos, penso que a escola, em termos estruturais, pouco tem mudado: no que respeita aos currículos, ao nível do ensino e à sua organização e funcionamento. O formato caracterizado pelo ensino expositivo, pela passividade dos alunos, pela especialização disciplinar e pela uniformidade de processos esbate algumas mudanças entretanto efectuadas, desvalorizando-lhes, na prática, o significado.
 
O insucesso escolar é naturalmente indesejável. Ontem como hoje. Mas problema bem maior, recuando no tempo, era o número dos que nem possibilidades tinham de serem partes nesse malogro. O mesmo argumento pode ser igualmente aplicado ao fenómeno do abandono escolar. A mesmíssima escola foi incapaz de acolher e trabalhar a diversidade, face à sua inépcia em incorporar a inerência relacional entre desenvolvimentos inevitavelmente díspares e as propostas invariáveis de aprendizagens e modos de as realizar.
 
A uniformidade das práticas, mais do que a unidade dos currículos, constitui uma circunstância decisória na subversão daquela relação e, analogamente, funda uma condição legitimadora de uma avaliação sumativa padronizada que tonifica, em termos lógicos, a improficiência da escola em responder aos desafios colocados pelas múltiplas dissemelhanças com que esta se confronta.
 
Opor os saberes científicos, entronizados como o único conhecimento relevante e organizado em subcategorias correspondentes à divisão disciplinar do currículo, ao saber que emerge da racionalidade da atividade e da interação, interpelante e interpretativo, favorece a suposta oposição - aquisição de conhecimentos versus desenvolvimento de competências - ou seja, convida à legitimação intolerável da contraposição entre conhecimentos e competências.
 
J. I. Pozo, no seu livro “Aquisição de Conhecimento” (págs. 164 a 171), apresenta um texto bastante curioso intitulado “Mentes diferentes para culturas diferentes”. Neste texto, Pozo começa por referir que não é exagerado afirmar que a maioria das correntes dominantes, em termos da pesquisa da aprendizagem humana, durante o século passado, aceitou a universalidade dos processos psicológicos, crença, aliás, profundamente enraizada na nossa tradição cultural.
 
Em grande parte da pesquisa efectuada, comprova-se, diz Pozo, que aquela se realizou, de forma descontextualizada, com ou sobre um sujeito e com base na aceitação implícita do pressuposto de que o funcionamento psicológico básico é anterior a qualquer experiência cultural. No entanto, embora minoritário mas significativo, um outro conjunto de pesquisas no âmbito da psicologia cultural, mostra, pelo contrário, discrepâncias, em diferentes sociedades, nas formas de representar e apre(e)nder o mundo. Dito de outro modo, o que estes trabalhos desvendam é que os sistemas de representação emergem da necessidade de dar solução a problemas originados pela atividade social, assim se gerando novas funções epistémicas e cognitivas.
 
Centrando-se em pesquisas mais recentes, onde se procura comparar os sistemas de conhecimento ocidental e oriental, Pozo refere que alguns estudiosos estabelecem uma série de diferenças entre o que eles chamam de tradição analítica ou ocidental e de tradição holística ou oriental. Resumidamente e em traço grosso, poder-se-á dizer que na nossa tradição ocidental o conhecimento está centrado na análise dos atributos do objecto, enquanto na tradição oriental situa-se o objecto no contexto do qual aquele não se separa ou se abstrai.
 
Sem pretensão de anexar mais e significativos desenvolvimentos, acrescente-se que Pozo conclui que cada um de nós adquire o conhecimento no âmbito de uma cultura que se apoia numa série de pressupostos implícitos, habitualmente não expressos, em relação à própria natureza desse conhecimento e dos seus mecanismos de aquisição. Ou seja, as distintas epistemologias implícitas não dirigem somente a aquisição de conhecimento, mas, igualmente, a sua produção cultural.
 
Neste contexto, Pozo refere Motokawa (1) que, reconhecendo o êxito indubitável da ciência ocidental, não deixa de a interpelar, ao avançar que uma ciência vive na história e que o seu valor adaptativo vai depender dos estádios de desenvolvimento da própria ciência e da sociedade, não deixando de recordar que no mundo operam outros tipos de ciência.
 
Deste modo e nesta linha de pensamento, Pozo elenca um conjunto de aspectos que a psicologia cognitiva deve aceitar para dar conta da aquisição de conhecimento e que fazem parte da tradição cultural da ciência oriental. Entre outros, menciona a relevância das imagens e das representações analógicas, a importância do contexto e da pragmática no conhecimento, as relações entre o implícito e o explícito, a superação de diferentes dualismos (processo/conteúdo, sujeito/objecto, natureza/cultura, etc.) e, ainda, a busca de uma integração entre formas e sistemas de representação em desfavor da aceitação de uma lógica dissociativa ou dicotómica.
 
Os conhecimentos científicos são fundamentais à aquisição e ao desenvolvimento de competências e o exercício destas amplia e integra aqueles, acrescentando-lhes os saberes emergentes decorrentes do potencial aprendente e operante inscritos na ação e inerentes às suas dimensões de indagação, transformação e permanente (re)significação. Assim sendo, mais do que ensinar os conteúdos, importa saber como os trabalhar, de modo a que os respectivos aprendentes deles se apropriem, pressupondo que a atividade na aprendizagem favorece a apropriação ambicionada e esta incrementa, de forma indiscutível, a ação competente.
 
O ensino expositivo, a passividade dos alunos, a especialização disciplinar e a uniformidade de processos constituem uma matriz que importa interpelar. As competências não se podem reduzir à imagem de realidades em potência, mas devem, isso sim, constituir objecto do trabalho educativo como realidades em ato, através do seu exercício intencional e de aplicação aos contextos pedagógicos, às situações de aprendizagem e às atividades específicas que as convocam. Assim, resta almejar que se resolva, e bem, este inexato mas imperecível e enigmático dualismo entre saberes e competências. Será que a tradição oriental nos poderá ajudar?
 
(1) – Investigador que, em conjunto com outros (Nisbett, Peng, Serpell, Hatano, Tweed, Lehman, …), comparou o sistema de conhecimento ocidental e oriental, analisando o modo como as distintas formas de conhecer influenciam a construção das mentes.